Jorge Maia: Vestígios do Dia

Foto: BLOG DO ANDERSON

Jorge Maia | Professor e Advogado | maiajorge@yahoo.com.br

A Netiflix incluiu em seu acervo nesta semana o filme Vestígios do Dia. Fiz questão de revê-lo, pois queria recordar o seu conteúdo, depois de tanto tempo. É filme encantador, para ficar apenas em um adjetivo. Inspirado na obra de Kazuo Ishiguro.   Um nipo/inglês com nome de japonês, conhecedor da alma britânica no que havia de mais puro no comportamento de um mordomo inglês, até a primeira metade do século vinte, profissão já em extinção. A nobreza em decadência já não podia suportar as despesas para manter um séquito de tantos empregados. >>>>

O mordomo senhor Stevens moldou o seu comportamento depois de tantos anos servindo à nobreza, obedecendo os rituais de servir à mesa e administrar o dia a dia do palácio. Uma atividade repetitiva, da qual se orgulhava de fazer tão bem.

Mergulhado em seus afazeres, contenta-se em servir, em um processo alienante, desgastante e sem pensar em si. Sóbrio, elegante no vestir e no falar, mantenha–se distante de tudo que vê e ouve, pois entende que não lhe cabe interpretar a realidade circundante, mas apenas cumprir o papel de servir bem. Anthony Hopkins abusa de interpretar bem no papel do mordomo.

A rotina do mordomo é quebrada quando é contratada uma nova governanta; Miss Kenton, que percebe a natureza romântica de Steven e a partir daí insinua um amor por ele, e faz surgir um amor platônico dos mais inocentes, porém não realizável.

A dedicação do mordomo ao seu trabalho apagou todo o seu interesse por qualquer outro valor, inclusive o amor, que reprimido, não acontecerá. O trabalho é preponderante, a vida fica em segundo plano.

O trabalho dignifica, contudo, danifica e aliena. Stevens foi danificado, sua dedicação o alienou a ponto de não encontrar nenhum significado na sua existência que não fosse o servir de forma plena ao seu patrão.

Pobre Stevens, não soube das alegrias da vida, ou dos seus dissabores, próprios dos mortais; Encarcerado no seu trabalho, não percebeu o passar dos anos, as transformações iniciais do século vinte e vivia em um passado que a história devastara. Para ele, os vestígios dos dias não tinham o sabor das alegrias e das tristezas da condição humana em sua plenitude. Amores impossíveis são enriquecedores, reflexivos e apaixonantes, na ficção. Na vida real, uma tragédia irrecuperável.VC120618


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