
Paulo de Tarso Magalhães David | advogado e professor
O dia em que o mundo não acabou com um estrondo, mas com um suspiro triste. Não foi um trovão qualquer. Foi o som de uma bomba explodindo e uma escola a desabar sobre dezenas de meninas no Irã. Eram crianças, jovens, tinham sonhos, cadernos, lápis, talvez segredos escritos às pressas nos intervalos. Agora são números, estatísticas, mais uma nota de rodapé na história que os poderosos escrevem com sangue alheio. Mas não nos enganemos: aquelas bombas não caíram do céu por acaso. Foram lançadas por mãos que se querem limpas, por países que se dizem faróis da democracia. Os mesmos que, em Gaza, transformaram bairros inteiros em cemitérios a céu aberto. Os mesmos que agora, no Irã, assassinaram dezenas de crianças dentro da sala de aula. E fazem-no com a precisão cirúrgica de quem sabe exatamente onde o terror deve doer para não manchar as próprias mãos. Continue a leitura.
E o Ocidente? Esse gigante de pés de barro, que tanto gosta de discursar sobre direitos humanos, liberdade, igualdade… esse mesmo Ocidente engole a língua. Baixa os olhos. Muda de canal. Porque reconhecer o horror seria reconhecer-se cúmplice. E a cumplicidade dói menos quando se disfarça de silêncio.
Seus líderes se apressam para declarar apoio ou, quando muito, expressar “preocupação” com a escalada militar, enquanto os escombros de uma escola primária para meninas na cidade iraniana de Minab continuam a ser removidos. O que se encontra por baixo deles é a evidência de um massacre que mancha a retórica de “valores democráticos” e de um mundo guiado por regras criadas por eles mesmos.
Os Estados Unidos, essa nação que se arvora em xerife do mundo, ensina ao planeta lições de moral enquanto financia, apoia ou simplesmente ignora massacres cometidos em seu nome ou com a sua conivência. Israel, seu fiel escudeiro no Médio Oriente, aperfeiçoou a arte de matar com a bênção dos que aplaudem quando o inimigo é o outro.
Mas estas meninas — estas meninas não eram o inimigo de ninguém. Eram apenas crianças. Eram apenas futuro. Eram apenas humanas. E o mundo democrático, esse que se comove com cães abandonados e causas distantes, não encontrou uma lágrima, uma palavra, um ai para elas.
Onde estão as bandeiras? Onde estão os gritos de “terrorismo” agora? Ou o terrorismo só é assim chamado quando praticado por muçulmanos de turbante, e não quando é perpetrado por aviões de países que se sentam no Conselho de Segurança? As velas acesas, os minutos de silêncio? Onde estão as manchetes, os editoriais? Não há. Não há porque o massacre, quando convém, deixa de ser massacre. Passa a ser “dano colateral”, “resposta proporcional”, “defesa da segurança”. O que se encontra por baixo deles é a evidência de um massacre que mancha a retórica de “valores democráticos” e expõe a mais brutal hipocrisia da geopolítica internacional.
E nós, os que ainda sentimos, os que ainda nos indignamos, os que ainda acreditamos que a vida é sagrada onde quer que pulse, nós ficamos aqui, a ver o silêncio dos que podiam gritar, a ouvir o som das bombas que ecoam no vazio deixado pela humanidade que se perdeu.
Que a terra seja leve para as meninas do Irã. Que a memória delas pese, eternamente, na consciência adormecida de um mundo que escolheu fingir que não viu.

