Ricardo Santos Marques Carrera | o Céu está caindo no Centro Sul Baiano: Kopenawa avisou

Foto: BLOG DO ANDERSON

Ricardo Marques | Doutorando em Território, Ambiente e Sociedade

Quem mora em Vitória da Conquista tem sentido que o começo do ano não está para brincadeira. A “Suíça Baiana” trocou o frio charmoso por tempestades que parecem não ter fim. Só em fevereiro, choveu mais de 200 milímetros — o triplo do que era esperado. Mas você já parou para pensar por que o céu resolveu “desabar” logo agora?  A resposta envolve ciência, mas também um alerta urgente que vem do coração da floresta. Para a meteorologia, o culpado tem nome: ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). Imagine um “rio invisível” de umidade que sai lá da Amazônia e resolve estacionar em cima da nossa região. Quando esse canal encontra frentes frias subindo do Sul, o resultado é aquele céu cinza e a chuva que não para por dia. Para completar, o fenômeno La Niña está resfriando o Pacífico e bagunçando o regime de ventos, enquanto o Oceano Atlântico anda mais quente que o normal, mandando ainda mais vapor d’água para cá. >>>>>>>>.

O problema é que Conquista é uma cidade de planalto, cheia de asfalto e alguns lugares de ladeiras. Alguns anos atrás um amigo engenheiro já alertava. Algumas ruas mais íngremes não poderiam ser asfaltadas e talvez a solução seria calçamento com pedras.  A água não tem para onde ir, o solo encharca e o Rio Verruga transborda. O resultado a gente vê nos jornais: muitas pessoas afetadas e a cidade em Estado de Emergência.

É aqui que a história fica mais profunda. Recentemente, o documentário “A Queda do Céu” trouxe para as telas a mensagem de Davi Kopenawa, xamã e líder do povo Yanomami. No livro que deu origem ao filme, ele faz um alerta que parece descrever exatamente o que estamos vivendo.

Kopenawa diz que os brancos (napë) estão doentes pelo ouro e pelo consumo, destruindo a floresta e “comendo” a terra. Para os Yanomami, a floresta é o que segura o céu no lugar. Quando as árvores são derrubadas e a fumaça das queimadas e das fábricas sobe, o equilíbrio do mundo se quebra.

“Se a floresta morrer, o céu vai cair sobre todos nós — não só sobre os indígenas.”

Pode parecer papo de filme, mas a ciência concorda com o xamã. A umidade que faz chover em Conquista nasce na transpiração das árvores da Amazônia. Se a gente destrói a floresta lá em cima, os “rios voadores” ficam descontrolados. O resultado são esses eventos extremos: ou secas terríveis ou tempestades que o nosso solo não consegue aguentar.

A “queda do céu” que Kopenawa descreve não é uma chuva qualquer; é o clima saindo do eixo. Quando vemos os bairros mais altos da cidade com medo de deslizamentos ou a zona rural isolada pela lama, estamos sentindo o reflexo desse desequilíbrio que começa longe daqui, mas que atinge todo mundo.

As chuvas em Vitória da Conquista são um aviso. Não dá mais para olhar para o clima como algo isolado. Tudo está conectado. Estamos na mesma canoa. É preciso repensar sobre a voracidade do agronegócio, o impacto do desmatamento na Amazônia, a política da exploração das commodities para o exterior, o consumo de combustíveis fósseis e tantas outras causas desse movimento anunciado. A Terra é nossa mãe e não mercadoria.

Mais do que nunca, é preciso ouvir quem entende da terra, como os Yanomami. O céu está dando sinais. Resta saber se a gente vai aprender a ouvir antes que ele caia de vez.

Deixar uma Resposta