Escrevi isso logo depois dos 50 anos de idade, mas, depois de 8 anos, acho que ainda é atual.
É duro passar dos 50!
Chamar o Bom Preço de Superlar ou o Rondelli de Cedisa já são indícios preocupantes. Ou então dizer Rua da Boiada (a João Pessoa) ou Rua dos Tocos (a 10 de Novembro). Aí, só mesmo consultando um geriatra. Conheço alguns assim. Um olhar para o passado e perceber que os 20, 25, 30… Ok, vá lá, os 40 anos de idade, já se passaram. Se não é assim, olhe bem a história de um determinado dia, dos vários que já vivi, depois dos 50. Um belo dia, depois do almoço (como acontece em todo santo dia), saio de casa em direção ao banco: filas, depósitos, contas a pagar, conversa com o gerente… blá, blá, blá.
Antes de entrar no carro, percebo que o carteiro havia jogado toda a correspondência no chão da garagem. Um mar de correspondências. Um mangue. Papel pra todo lado. Pensei “vou ao banco, mas, antes, não custa nada dar uma olhadinha naquilo tudo, pode ter algo urgente”. Com as mãos carregadas, entro de novo em casa, penduro a chave do carro no lugar apropriado e, armado de paciência, verifico toda aquela papelada. Contas a pagar (essas de luz, água e telefone, que os bancos já não recebem, mais), propaganda de cartão de crédito, de operadoras de celular (Vivo, Oi, Tim, Claro), de revistas variadas e, também, da Playboy. Ah! A Playboy. O panfleto traz a fotografia de uma mulher sem roupa, de corpo escultural, pernas bem torneadas, seios perfeitos (não sei se delineados pelo silicone ou pelos toques e truques do Photoshop). Por um momento, vêm as lembranças do fervor da juventude… “Bem, tenho que ir ao banco”, penso, balançando a cabeça, numa frustrada tentativa de tirar aquele “avião” do pensamento. Continuo examinando a correspondência, encontro mais algumas inutilidades. Todas me oferecendo vantagens (é sempre assim). Separo o que interessa e vou jogar o resto no lixo. Claro que, a maioria! Vejo que o balde está cheio. “Tenho de esvaziá-lo”, penso. Deixo as contas sobre a mesa. De repente, me lembro que há uma casa lotérica perto de minha casa, ali na Siqueira Campos. “Vou lá pagar as contas”, decido. Algumas estão vencendo hoje. Se “cortarem” o telefone, religar, só três dias depois (isso com muita boa vontade). Claro que, depois de exaustivas e enfadonhas horas de conversa, com uma máquina, intercalada por uma “musiquinha” insuportável, que me faz sentir como um imbecil. Não sei o que é pior, “conversar” com aquela voz digital (sem poder, em certos momentos, depois de uma longa espera, mandar o interlocutor à PQP) ou se ouvir aquela “musiquinha”, que só pode ter saído da cabeça do mais sádico dos sádicos.
Voltemos à história. Ficamos no cesto de lixo. “Tenho de esvaziá-lo”, voltei a pensar. Deixo pra depois, primeiro as contas. Vou em direção à porta. Paro e me pergunto: onde deixei o cartão de crédito? No bolso da calça ou no da camisa que vesti ontem? Dirijo-me à cata do cartão de crédito, com a seguinte indagação: “calça e camisa estariam penduradas atrás da porta do quarto ou já foram pra lavanderia?” Vou conferir. No caminho, passando pela mesa da copa, vejo uma lata de cerveja, pela metade. Vou jogar fora. Na cozinha, percebo que os enfeites da geladeira estão no chão. Deixo a cerveja sobre uma mesinha… “é melhor arrumar os enfeites”. Ah! Achei meu cortador de unha, vou guardar num lugar seguro antes que o perca novamente. Ainda com o cortador na mão, noto que deixaram (ou deixei) o controle da televisão sobre o fogão. À noite, na hora de assistir TV, ninguém acha o maldito controle. Vou logo levar lá pra junto da TV. Deixo o cortador de unhas e pego o controle remoto. Já nem sei o que estou fazendo com esses enfeites de geladeira na mão. Lembro-me de que preciso pegar o cartão de crédito, também, já nem sei pra que. Ao passar pelo corredor, noto umas cerâmicas rachadas e vejo que é preciso trocar. “Mais tarde vou falar com o pedreiro”, volto a pensar. Posso esquecer, é melhor falar agora. Pego o telefone, mas, onde deixei o cartão (de visitas) com o telefone do pedreiro?
Minha cabeça está como se estivesse dado um nó. Contas pra pagar, cesto de lixo cheio, enfeites de geladeira na mão, controle remoto na cozinha, lata de cerveja pela metade. Não sei o paradeiro do cartão de crédito, não fui ao banco, nem na casa lotérica, nem falei com o pedreiro.
Terminou o dia e só me lembro que, pela manhã, peguei o telefone pra falar com o pedreiro, guardei meu cartão de crédito (não sei onde) e, depois de cortar as unhas, fui à cozinha com o controle da TV. Não entendo, fiquei o tempo todo ocupado (ocupadíssimo, diga-se de passagem) e não fiz absolutamente nada. Tenho a leve impressão que estou me esquecendo das coisas. Com essa memória fraca, acho que preciso ir ao médico. Claro, pra ir ao médico preciso do cartão de crédito… ou será do cartão do plano de saúde (ou dos dois)?. Por falar nisso, onde deixei o maldito cartão do plano de saúde?
Ufa! É duro passar dos 50!
Mas, pensando bem, pior é não passar dos 50!


3 Respostas para “Um homem de 50 e mais (suas confusões)”
Alberto
Paulo
Bom ter você de volta no bloq !!! Quanto a sua cronica é a porra da PVC chegando. Normal.
abs
alberto
Daniel Costa
Texto excelente…uma bela crônica!
Rikelle
Muito Boom!!!!!!!!!!!!