Jorge Maia: Um trem noturno para a Beócia

Foto: BLOG DO ANDERSON
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Jorge Maia

Depois de muito tempo, resolvo voltar a Beócia. Optei por uma viagem mais tranquila, sem depender das nuvens que  não clareiam os céus e nem curvas e buracos. Fui de trem. Um comboio confortável, acompanhado de uma paisagem exuberante. Tão linda que me fez lembra a música: Você já foi a Beócia? A minha surpresa é que, no mesmo vagão, viajava o nosso conhecido Zé Picuinha. Aquele filósofo, jurista e sociólogo da Beócia de tantas lembranças engraçadas e episódios  inesquecíveis. Sempre de bom humor, acolheu-me com largo sorriso. Profundo conhecedor da História do Brasil, não perdeu a oportunidade de zombar do nosso país, dizendo que é um pais de terra firme, gado forte e povo besta. Leia na íntegra.

Pela minha expressão, percebeu que não gostei da brincadeira e tratou de mudar de assunto, passando a relatar a sua viagem. Na verdade ele estava vindo de uma longa viagem realizada para a Vila de Carrapichel, distrito de Senhor do Bonfim, no Brasil, fora fazer uma palestra sobre ética e honestidade, aspectos teóricos, uma vez que os aspectos práticos é algo que todo o nosso país conhece muito bem e não precisa ouvir de ninguém. Notei um leve sarcasmo, mas preferi não comentar.

O tema da sua palestra teve o foco no dever de não roubar, dizia ele, nunca roube ou furte. Jamais se deixe levar pela tentação. Eu sei, dizia ele, que é “preciso estar atento e forte”  ” é preciso não temer a morte” jamais se deixe dobrar pela tentação ao ataque do patrimônio público ou privado.

A certa altura ele disse: se um dia a tentação for muito forte, se o cão atentar, e o cão atenta, não roube ninharias, não seja pobre de espírito, não roube migalhas. Esse negócio de roubar cem mil, quinhentos mil é coisa de tolo, uma perda de tempo que denuncia a falta de inteligência da criatura.

Mas, a minha orientação é que nunca roube. Se o cão atentar, roube nunca menos de três milhões de Euros. Sim, três milhões de Euros. Dinheiro suficiente para fugir da policia, usando avião, helicóptero, belos iates, acompanhado de uma mulherada. Visitar a Europa com a Interpol no seu encalço, andar pelas ruas de Londres, Roma, Nova York e Paris.

Visitando belos restaurante e usando roupas finas e relógios caros, com mil namoradas, os shows e espetáculos mais ricos do mundo.Enfim pagando o preço da sua ousadia.

Mas um dia a Interpol lhe põe a mão e você  vai amargar a solidão da cadeia de segurança máxima, pois você será considerado perigoso, mas tudo está como você queria. Agora, isolado, você terá tempo para escrever as suas fantásticas aventuras e venderá milhares de exemplares, em seguida venderá os direitos autorais para Hollywood  por três milhões de Euros, será libertado por bom comportamento e ensinará aos seus netos: nunca roube, mas se o cão atentar… 051015


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