Jeremias Macário: Uma máquina de sonhos e pesadelos Infectada pela insensatez política

Foto: BLOG DO ANDERSON
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Jeremias Macário | Jornalista | [email protected]

Mais uma eleição e mais um claro sinal de que o sistema eleitoral do país precisa ser passado a limpo por uma profunda reforma, embora os políticos de um modo geral não queiram nem falar nisso e preferem continuar na marcha da insensatez, com uma máquina enferrujada que só produz insatisfação, sonhos e pesadelos. Poderia dizer também se tratar de uma máquina emperrada e exótica que mistura alhos com bugalhos. >>>>>

  Esta máquina conseguiu rebaixar a importância das câmaras de vereadores nos planos locais de suas comunidades e excluir delas o papel fundamental de legislar e fiscalizar os executivos para apenas estarem ao lado deles. É uma máquina de fazer vereadores e deputados se perpetuarem no poder por anos e anos, e que construiu um cativeiro de eleitores que se tornaram escravos e devedores do voto por favores e ajudas feitos num passado coronelista.

  Diante de todo este sistema que se tornou velho e retrógrado, a mídia trata a eleição para as câmaras de vereadores como coisa secundária, gracejando com o exotismo de nomes de certos candidatos que terminam sendo eleitos. O resultado é que a abstenção, votos nulos e brancos nas urnas por insatisfação bateram o recorde, e a substituição dos velhos políticos foi baixa. As câmaras continuam as mesmas, sem transparência, sem mudanças e sem representação popular.

  Como não poderia deixar de ser diferente, este é o quadro de Vitória da Conquista, com abstenção de 20,74%. Mais uma vez se registra a perpetuação do poder na Câmara Municipal em quase metade dos seus membros de 21 cadeiras, muitos por mais de 20 anos, embora nesta eleição tenha ocorrida uma renovação de 52%, ainda não o ideal desejado, mas bem acima da de Salvador que foi de apenas 35%.

 Não sou cientista político, mas entendo que uma das medidas para mudar este sistema seria acabar de vez com a reeleição por vários e vários pleitos de vereadores e deputados. Dentro do esquema bruto atual, difícil concorrer com quem já está no poder por muitos anos. A própria máquina vicia o candidato e o eleitor no tal feijão com arroz. Outra coisa seria exigir do candidato a vereador que tenha pelo menos o ensino médio completo para exercer o cargo público, como no caso do concursado.

  ABSTENÇÃO, QUEDA DO PT E AVANÇO DA DIREITA

  No quadro geral do país, o título acima bem que poderia ser “Uma máquina de fazer insatisfação política”, diante do elevado índice de abstenção, votos nulos e brancos, num patamar entre 15, 17, 20 e até 50% como foi no Rio de Janeiro.

  Em nove capitais brasileiras, o número de brancos, nulos e de eleitores que se ausentaram às urnas foi maior do que do candidato que ficou em primeiro lugar. É o caso de São Paulo onde João Dória (PSDB) ganhou a eleição com 3.085.187 votos, número menor que a soma de brancos, nulos e ausências de 3.096.304. No Rio de Janeiro, somados os votos dos dois candidatos que passaram para o segundo turno, o número é menor do que os votos inválidos e ausências. No país, 24 milhões deixaram de votar.

   Comungo com a leitura feita pelo meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez quando diz que o eleitor foi às urnas com o apetite de varrer o PT do mapa político, só saindo vitorioso em Rio Branco, no Acre. Passou de terceiro colocado no Brasil, atrás apenas do PMDB e PSDB, em 2012, para a décima posição, em 2016.

  Na Bahia, por exemplo, o PT perdeu 54 prefeituras (58% a menos). Elegeu 39 prefeituras contra 93 em 2012. No país só conseguiu 5% dos prefeitos, contra 11,5% na eleição municipal passada. Concorreu com 989 candidatos (44% a menos) e elegeu 240, registrando o pior desempenho desde 1996. Na Câmara de Vereadores de Salvador, saiu de seis para três vereadores. ACM Neto conseguiu eleger 30 coligados que não vão fiscalizar o prefeito, mas ficar do lado dele.

  Como citou meu amigo Gonzalez, no estado, o PT perdeu redutos importantes como Camaçari, Salvador, Barreiras, Feira de Santana, Alagoinhas e levou o pleito para o segundo turno em Vitória da Conquista. Gonzalez acha que aqui contou muito a figura política de Guilherme Menezes como puxador de votos dados ao PT que venceu em Lauro de Freitas com Moema Gramacho.

  No entanto, temos que admitir que houve um equilíbrio de polarização entre as duas principais lideranças no cenário político baiano entre Ruy Costa e ACM Neto. Nas cidades do interior, os prefeitos eleitos pelos partidos da atual base do governador irão administrar 5,49 milhões de eleitores, o equivalente a 51,4% do total do eleitorado.

  As siglas que dão sustentação a Neto terão prefeitos comandando 5,1 milhões de eleitores, ou seja, 48,6%. Neto é a principal aposta do DEM e Ruy o nome do PT e da esquerda para 2018.  O DEM do prefeito eleito administrará mais eleitores no território baiano (3,2 milhões). É que o partido venceu em cidades mais importantes.

  Na base do petista, até o momento atual, a maior força política é o PSD que elegeu 81 prefeitos (1,6 milhão de eleitores). Depois do PSD vem o PSB que conquistou cidades maiores com 858 eleitores. Em terceiro o PP que ficou com 846 mil votantes.

   O PT passou de 93 cidades comandadas por ele para 39, ocupando a quarta posição na Bahia, com 815 mil eleitores, mas é bom salientar que este quadro pode mudar a partir do resultado do segundo turno em Conquista. A tendência no terceiro maior colégio eleitoral da Bahia é que o PC do B, de Fabrício e o PSB, de Joás Meira, quarto e quinto lugares, respectivamente, em número de votos, apõem o PT, de José Raimundo. O PSDB, de Arlindo Rebouças, a maior surpresa no pleito em terceiro lugar, tende a se aliar ao PMDB, de Hérzem Gusmão.

  Outro fato importante nestas eleições na Bahia foi a baixa reeleição de candidatos a prefeito. De 307candidatos aptos, só 204 entraram na disputa e apenas 77 saíram vitoriosos (37,74%) e 127 perderam. O número é recorde desde quando foi instituída a reeleição em 2000. Mais um dado curioso é que caiu o número de mulheres eleitas, passando de 64 em 2012 para apenas 56 em 2016.

  Lembra Gonzalez que o ex-presidente Lula perdeu a prefeitura de sua cidade de São Bernardo do Campo (berço do PT), e o filho não conseguiu a reeleição como vereador. Em São Paulo foi um desastre para as pretensões de renascimento do partido, tendo Fernando Haddad como uma ponte para Lula em 2018.

  Convém ressaltar o grande avanço da direita e da extrema direita, principalmente através dos evangélicos encrustados em pequenos partidos que estão cada vez mais se encorpando e crescendo.  Sobre esta questão, o amigo Gonzalez faz a seguinte advertência: “O lamaçal evangélico está avançando nos poderes estaduais e municipais e um dia chegará ao Planalto. Das quatro mulheres novatas eleitas para a Câmara de Salvador, três são evangélicas, sendo que duas delas são pastoras da IURD. A quarta, a mais nova, bonitinha, parece que foi eleita com os votos de cães e gatos”.

  Aliás, foi em São Paulo onde aconteceu a maior surpresa com a vitória em primeiro turno do empresário João Dória (53,29%) que durante a campanha bateu no slogan do “Não sou político, sou gestor.” Saíram-se bem os tucanos Alkimin, José Serra e Aécio Neves que “afiam seus bicos para brigar pelo Planalto”, como bem ressalvou o amigo Gonzalez.

  Outras observações dele são de que os tiriricas se multiplicaram nos legislativos; João Henrique em Salvador não conseguiu vaga na Câmara; os Bolsonaros invadiram a política carioca; e em Conquista, a Câmara continua sem transparência e reelegeu 12 velhas raposas.

  Mais ainda que Brizola Neto (PSOL) e Mário Covas Neto (PSDB) foram eleitos, respectivamente, vereadores do Rio e SP. “O carioca, assim como o baiano adora festas, funks e carnaval, governado por Crivella, figura de proa da Igreja Universal. Há um vídeo circulando na internet onde ele diz que o negro só gosta de cachaça, carnaval e macumba”. Aliás, aquela figura exótica, que atende pelo nome de Greca, e que vai para o 2º turno em Curitiba, declarou recentemente em campanha que vomitou no dia em que deu carona a um pobre. “Pobre fede”, disse.

 


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