Rubens Sampaio: “O fato e a foto no espaço midiático da sociedade da transparência”

Foto: BLOG DO ANDERSON

Rubens Jesus Sampaio 

A negatividade do acesso constante, preserva o valor da obra de arte. Desta forma, a inacessibilidade, característica intrínseca da negatividade, contraria a sociedade da transparência onde tudo está exposto e deve ser explorado como mercadoria. Walter Benjamim (1963), esclarece que “para as coisas que estão a serviço do culto é mais importante que existam do que sejam vistas”. Byung-Chul Han (2018), corrobora com Benjamim e salienta que “a prática da reclusão eleva o valor cultural e preserva a áurea”, assim, mantem a sacralidade. Não é esta a história de Moisés, Isaque, Isaías e Ezequiel nos relatos presentes nos livros do Antigo Testamento? Também Paulo no caminho de Damasco e João na Ilha de Pátmos? >>>>>

O fetiche da exposição proposta pela sociedade acelerada, torna a imagem transparente desprovida de significado estético. É o colar de fotos sem uma narrativa. Observem a mesmice no padrão das poses! Falta vivacidade como no violonista que não mais compõe música, apenas toca num ritual maquínico. É o ver em si, esvaziado de sentido, diferente do olhar demorado, profundo e penetrante da leitura. Assim, a transparência exigida na velocidade da hiperinformação, da hipercomunicação e da hiperexposicão “destrói a alma e provoca nela uma espécie de burnout psíquico” nas palavras de Chul Han.

 

A compulsão pela checagem constante, gerada pelo medo de estar desconectado do mundo, o acordar altas horas da noite por não resistir ao toque da mensagem que chegou, levam ao estresse. O dia inicia e termina deixando uma sensação de vazio, que, mais tarde, desembocará em problemas de saúde pública.

Não são estas as características de nossa sociedade, principalmente entre os mais jovens, onde os deslikes das redes sociais podem levar à morte, já que não estão habituadas a lidar com o sofrimento e a dor? Não é, ainda que de maneira imperceptível, a outra face do – Pare de Sofrer – máxima exposta como bordão nas igrejas de Edir Macedo e práticas similares do movimento Neopentecostal? Não seria, também, em ambos os casos, a incorporação das características da sociedade da positividade, esposada pela teologia da prosperidade, onde não se admite qualquer sentimento negativo, conforme já pontuei em NEOLIBERAL ETHICS IS THE SPIRIT OF THE NEO-PENTECOSTALISM, artigo escrito em 2019?

Ainda pensando na necessidade da hiperexposicão “pornográfica” nas redes, o sujeito encarnado com seu próprio garoto-propaganda, no mercado onde o preço define o produto, o like é a materialização do êxito no chamar a atenção, gerando assim, a satisfação interior, ainda que por um momento, como no viciado em crack. Afinal, na era do Photoshop não há negatividade, “o semblante humano se transforma em face, que se esgota totalmente em seu valor expositivo”. A face é o rosto exposto sem qualquer áurea da visão, como dizia Baudrillard e, com a possibilidade da digitalização, consubstancia-se de forma enviesada o que dizia Giles Deleuze: a foto não é o fato.

O narcisismo atrofia e falsifica a obra de arte em nome de uma produção que não admite as imperfeições, ou seja, teme-se o sofrimento da negatividade e, como o exposto é perecível, há a necessidade de novas fotos e novas campanhas, ainda que distorcendo os fatos.

Não é sem motivos que temos tantas academias de ginástica e tantas igrejas.

Benjamim, W. 1963, p. 21

Boudrillard, J. p. 65

Deleuze, G, 1964, p. 53

Han, Byung-Chul, 2018

Sampaio, R, 2019

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do BLOG DO ANDERSON


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