Sobre a COVID-19: A Detração das Verdades Factuais

Foto: BLOG DO ANDERSON

“O lugar do inconsciente é a linguagem; esta mesma nos domina e nos aliena” (Lacan)

Doutor Marcos Luna

Desde o início deste século XXI, alcançou notoriedade contumaz nas mídias jornalísticas, e repulsa nos meios acadêmicos da linguística e da filosofia-lógica, a percepção de que a realidade com seus fatos ordinários, ou não, está sendo entremeada e sublinhada por diversionismos, mistificações, injúrias anônimas, oportunismos partidarizados e delações criminosas, cristalizando-se em detrações sistemáticas à veracidade histórica passada e contemporânea. Leia a íntegra.

  Sob a égide da pandemia Covid 19, a atitude disseminada nas fake news insere a distração e  constrói a impressão de que as “verdades fáticas” podem ser recriadas pelos olhares enviesados dos poderes, do  fascismo político – até mesmo por aqueles que presumem estar ao lado da normalidade urbi et orbi ou nos estamentos decisórios das judicaturas dos estados nacionais. O negacionismo das verdades científicas e das  ferramentas epidemiológicas acadêmicas publicadas em seminários ou em anais afins , extrapola o bom-senso e as responsabilidades sociais dos protagonistas políticos – não raro atingindo os limites da judicialização ou infração da ética pública.

Não obstante, o princípio filosófico de que a maiêutica da verdade transcende a razão socrática e os sofismas parlamentares, a tergiversação da verdade factual também ultrapassa a metafísica religiosa e os sentidos materialistas; quando através da detração dos acontecimentos em suas circunstâncias, aplica a transgressão do dogma: os fatos ocorridos até merecem interpretações ideológicas, mas não devem  – e não poderiam – jamais ser refeitos ou desconstruídos pelo indivíduo a seu talante, ou no contexto dos seus interesses…

 O Brasil é um país que ainda não se fez nação plena, porquanto a sua política e historicidade ainda negam a si mesmo,  desde a sua fundação; e quando os seus colonizadores e as suas elites descendentes jamais superaram as ambivalências culturais, os seus compromissos mercantilistas, as suas dependências geopolíticas e os laços burgueses capitalistas com o mundo hegemônico europeu e norte-americano.

 Estas mesmas elites ”impermeabilizaram” seus governos e seus poderes – vide o escravagismo e a república primal excludente do povo –  ao desenvolvimento educacional dos brasileiros nativos, e a conquista da autonomia nacional e a produção de conquistas alvissareiras e libertadoras para uma realidade social onde a distribuição das riquezas seria implementada equitativamente. “A esperança é uma lanterna que se carrega ao ombro – iluminando o caminho percorrido” (La Rocefoucauld). Se é verdadeira a assertiva que nenhuma nação deve prescindir das memórias e embates no presente, a utopia jamais será esmaecida … nem mesmo sob uma pandemia viral trágica. A ver.

Dr. Marcos Luna, médico-escritor, pós-graduado na Harvard University -USA e Ufba

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