Paulo de Tarso | o legado de Kissinger: quando ser aliado dos EUA se torna uma sentença

Foto: BLOG DO ANDERSON

Paulo de Tarso Magalhaes David | advogado e professor

Henry Kissinger cunhou uma frase que até hoje assombra Washington: “Pode ser perigoso ser inimigo dos Estados Unidos, mas ser amigo é fatal”. Originalmente um alerta para que Nixon não abandonasse aliados como o Vietnã do Sul, a história tratou de confirmar a profecia: Saigon caiu, e o mundo testemunhou que a amizade americana poderia, de fato, equivaler a uma sentença de morte. Hoje, essa lição se atualiza com preocupante nitidez. Caso a guerra de agressão contra o Irã resulte na derrota — ou mesmo em um impasse custoso para Israel e Estados Unidos, o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio será completamente redesenhado, validando cada ponto do antigo diagnóstico de Kissinger. Continue a leitura.

O projeto da “Grande Israel” e a normalização das relações com o mundo árabe, simbolizada pelos Acordos de Abraão, sofreriam um golpe mortal. Uma vitória iraniana — ou mesmo a resiliência demonstrada pelo Irã quebraria o mito da invencibilidade militar israelense. A capacidade de dissuasão de Israel, pilar de sua segurança e expansão, ruiria. Sem ela, o projeto de anexação e controle territorial torna-se estrategicamente insustentável.

Países como Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que apostaram na normalização com Israel, ver-se-iam alinhados com o lado perdedor. O “custo de oportunidade” de ser amigo dos EUA se tornaria evidente: em vez de ganhos econômicos e segurança, eles herdariam a hostilidade de um eixo emergente e a desconfiança de suas próprias populações. O velho ditado de Kissinger se materializaria com força total. Os países do Golfo concluiriam que ser “vassalos dos EUA foi a pior decisão”, pois os deixou expostos e isolados diante da nova realidade. A segurança americana, que parecia eterna, mostrou-se condicional e frágil como já alertavam analistas sobre o custo de confiar em Washington.

O impacto global desta derrota não seria um evento isolado, mas um catalisador de tendências profundas. Os EUA, que já patinam em um cenário de “império em declínio” com dívidas estratosféricas (já superiores a 34 trilhões de dólares), veriam sua palavra final perder qualquer credibilidade. Se não conseguem garantir a segurança de seu principal aliado, Israel, como garantir a de outros? A imagem de potência em retração se consolidaria.
A vitória iraniana seria interpretada como um triunfo do eixo emergente Rússia, China, BRICS+ sobre o unilateralismo americano. A nova ordem global multipolar, onde nenhum poder dita as regras sozinho, ganharia um impulso formidável.

Uma derrota dessa magnitude mancharia definitivamente o legado de figuras como Trump e Netanyahu, será a descida da dupla para o “inferno” e o fim de um ciclo, mas mais do que isso: enterraria de vez a política externa baseada em coerção e alianças descartáveis, deixando os EUA mais isolados do que nunca um gigante sem amigos e com inimigos fortalecidos.

Eis a conclusão lógica de um processo histórico anunciado pelo próprio Kissinger. Uma derrota de Israel e EUA para o Irã não seria apenas um revés militar; seria o funeral simbólico da hegemonia americana, a prova final de que sua amizade é, de fato, fatal. Nesse novo mundo, a chama da resistência iraniana iluminaria o caminho para uma ordem verdadeiramente multipolar, deixando para trás os escombros de um império e de seus aliados arrependidos.

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