
Edvaldo Paulo de Araújo | contabilista e pensador
Outro dia muito sentido, estava presente no enterro de um velho amigo querido, com quem caminhei junto, longos anos, sempre presente um na vida do outro, sem renegar jamais em momentos difíceis. Ao lado de dois dos seus filhos, avistei — e ele mim viu —, vindo me cumprimentar o filho que mora em São Paulo. Todo choroso, mim estendeu a mão e mal-educadamente não retribui. Disparei a pergunta doída: “Você veio fazer o que aqui?” Prontamente ele respondeu: “Ué, a morte do pai!”. Depois de 10 anos, sem um telefonema, sem uma carta, sem um aceno, depois de muita dor no coração dele, você veio limpar a consciência? Você é muito cara de pau… Todos olhavam boquiabertos — e saiu de fininho o filho ingrato. Quando saiu, os irmãos que estavam ao meu lado vibraram com o que eu disse e eles não disseram. Continue a leitura.
Assim é o velório! Fui em dois velórios nesses três anos, observei tonto — todos falando de roça de café, preço do gado, contando piadas — quando eu tentava orar. Todos aqueles que ali estavam nunca foram amigos de ninguém. Onde estavam quando meus amigos estavam no hospital sofrendo? Onde estavam quando meus amigos passaram por tantas dificuldades? Ouso responder: todos dentro do egoísmo de suas lutas. Sempre na busca do ter, esquecendo o ser. Aí no velório aparecem com suas lágrimas, limpando a consciência.
Recentemente fui num velório de outro amigo, vi cantoria, homenagens, discursos — e em mim não calava a pergunta: quando ele estava sofrendo com a doença, onde estavam a maioria? Quando hospitalizado, sofrendo, onde eles estavam?
Eles estavam…
Anos de silêncio e a poeira no portão.
Nenhuma carta, nenhum como vai, irmão.
Às vezes a estrada é longa, a pressa é tamanha,
para trazer o luto que a alma não acompanha.
Cruzou fronteiras, ignorou o cansaço,
para vir medir a dor, centímetro por braço.
Velório é o palco da hipocrisia,
onde a lágrima ensaiada vira poesia.
Para limpar a mancha do que nunca se fez,
vem beijar a testa pela última vez.
O cheiro das flores não esconde o vazio
de quem deu as costas e agora sente frio.
Não houve em vida um copo na mesa,
nem uma partilha, nem uma franqueza,
mas agora a roupa preta parece tão justa,
para pagar a ausência que lhe custa.
Um aceno de longe, o silêncio no bar,
agora não falta motivo para chorar.
A consciência é um bicho cruel
que só se acalma no toque do véu.
Tão longe no abraço e tão perto do adeus,
julgando os vivos e esquecendo os seus.

