
Na véspera do segundo turno das Eleições 2026, neste sábado (24), o professor e cientista social Wilton Teixeira Cunha apresenta um estudo detalhado sobre o cenário eleitoral do Brasil. O levantamento analisa a evolução das intenções de voto no período de 17 a 24 de outubro, apontando um movimento de estreitamento das margens entre os candidatos até o registro de equilíbrio na curva da disputa. A análise reforça que a decisão final permanece em aberto e será definida nas urnas pela mobilização dos eleitores indecisos e pelos índices de comparecimento no dia da votação. Confira abaixo o artigo completo assinado pelo analista aqui no BLOG DO ANDERSON.
“A VIRADA NO HORIZONTE?
Lula encosta, Flávio perde fôlego e a eleição chega ao limite
Por Wilton Cunha
Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e se transforma em um teste de resistência política, capacidade de mobilização e leitura dos sinais emitidos pelo eleitorado. A reta final da corrida presidencial brasileira parece reunir todos esses elementos.
Os números apresentados na série de acompanhamento entre 17 e 24 de outubro sugerem um movimento que merece atenção: a vantagem inicialmente atribuída a Flávio Bolsonaro diminui progressivamente até que, no último registro, Lula aparece com uma diferença positiva de 0,60 ponto percentual.
Se essa trajetória for confirmada por levantamentos comparáveis, estaremos diante de um fenômeno politicamente relevante. Mas convém separar o entusiasmo da campanha da prudência do analista: uma tendência pode indicar uma possibilidade de virada, mas não equivale à comprovação de uma vitória.
O GRÁFICO DA EVOLUÇÃO: DE VANTAGEM DE FLÁVIO A VANTAGEM DE LULA
A tabela registra a seguinte sequência de diferenças:
17 a 24/10: +1,24 pp Flávio
18 a 24/10: +1,18 pp Flávio
19 a 24/10: +1,10 pp Flávio
20 a 24/10: +1,00 pp Flávio
21 a 24/10: +0,98 pp Flávio
22 a 24/10: +0,80 pp Flávio
23 a 24/10: +0,56 pp Flávio
24 a 24/10: +0,60 pp Lula
O dado politicamente mais expressivo não está apenas na redução da diferença favorável a Flávio. Está na mudança de sinal do último registro, em que a série passa de uma vantagem de 0,56 ponto para Flávio, no registro anterior, a uma vantagem de 0,60 ponto para Lula.
Isso representa uma oscilação de 1,16 ponto percentual entre os dois registros finais. Já a mudança entre o primeiro registro e o último é de 1,84 ponto percentual em favor de Lula.
São movimentos que chamam a atenção, mas precisam ser interpretados conforme a origem, a metodologia e a margem de erro dos levantamentos que os produziram.
A CURVA POLÍTICA: O QUE OS NÚMEROS CONTAM?
A trajetória é clara: a vantagem atribuída a Flávio se estreita ao longo da série, até o último registro, que aponta Lula à frente.
A política eleitoral, entretanto, não é uma linha reta. Uma diferença pode diminuir por crescimento de um candidato, queda do adversário ou combinação dos dois movimentos. Sem os percentuais individuais detalhados, não podemos afirmar qual desses fatores explica a mudança. Essa distinção é essencial para compreender o que está acontecendo.
LULA PODE VIRAR O JOGO?
A possibilidade existe, mas precisa ser examinada à luz do conjunto das evidências.
A pesquisa CNT/MDA deste sábado (24/10) oferece uma fotografia diferente: Flávio com 50,7% contra 49,3% de Lula, com diferença de 1,4 pp, dentro da margem de erro de mais ou menos 2,2 pp.
Isso significa que a disputa permanece aberta, mas não autoriza afirmar que Lula já tenha ultrapassado Flávio no conjunto das pesquisas.
O que podemos dizer é que uma vantagem estreita não oferece segurança a nenhum candidato. Em uma eleição decidida voto a voto, pequenas mudanças na participação eleitoral, na escolha dos indecisos e na mobilização podem adquirir grande importância.
Para Lula, o desafio é transformar intenção em votos depositados nas urnas. Para Flávio, é preservar a vantagem apontada por parte dos levantamentos.
O ELEITOR SILENCIOSO PODE DECIDIR
Existe um personagem que costuma escapar aos discursos grandiloquentes: o eleitor que ainda não decidiu, aquele que pretende votar mas não anuncia, e aquele que pode não comparecer às urnas.
É nesse território que uma eleição apertada pode mudar de direção. A mobilização dos abstencionistas do primeiro turno e a conquista dos indecisos tornam-se fatores centrais.
Não basta acompanhar a oscilação de uma pesquisa. É necessário observar se a campanha consegue transformar simpatia em voto e discurso em confiança.
O SIGNIFICADO POLÍTICO DE UMA EVENTUAL VIRADA
Se Lula vencer, poderá ser interpretado como vitória da experiência política, da estrutura partidária e da capacidade de mobilização. Se Flávio vencer, representará a capacidade do campo bolsonarista de transferir capital político e transformar o resultado do primeiro turno em nova maioria.
Nenhuma dessas interpretações deve ser confundida com resultado antecipado. A democracia exige que o eleitor decida, e que a análise respeite a diferença entre hipótese, tendência e fato consumado.
A ELEIÇÃO NÃO SE VENCE NO GRÁFICO
A série apresentada oferece uma narrativa instigante: a vantagem de Flávio diminui e o último registro passa a favorecer Lula. Se confirmada, essa mudança será um dos sinais mais relevantes da reta final.
Mas o gráfico não deposita votos, não mede sozinho a participação eleitoral e não substitui a apuração oficial. A eleição se decide nas urnas.
Até lá, o analista precisa manter os olhos abertos, a interpretação equilibrada e a disposição de reconhecer os fatos, mesmo quando contrariam expectativas.
Lula pode virar? Pode. Flávio ainda pode vencer? Também pode.
O que os números demonstram é uma disputa apertada, viva e indefinida.
Wilton Cunha — Política e Resenha
‘A gênese do poder é a verdade.’ Wilton Teixeira CunhaPossui graduação em Agronomia pela Universidade Federal da Bahia (1979) e mestrado em Sociologia Rural pela Universidade Federal da Paraíba (1985). Atualmente é Professor Titular da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, professor titular da Faculdade Independente do Nordeste, Sócio Fundador da Cooperativa Educacional, Professor da Faculdade de Tecnologia e Ciências e Cooperado da Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Servidores da Uesb, atuando principalmente nos temas de Sociologia Rural.”

