Bira e o barbante

 Por Paulo Ludovico

O Instituto São Tarcísio foi, uma das maiores escolas de Vitória da Conquista. Mas, antes de ser o que chegar a seu ponto máximo, começou pequeno. Quando fui estudar no São Tarcísio, a escola funcionava numa rua, atrás da casa onde moravam “seu” Viriato e “dona” Nenem, pais das professoras Edna (de saudosíssima memória), Edméia (artista plástica das mais talentosas) e Ednalva, além de Ednália e Eduardo, ainda estudantes, e de Edmilson e Edson (esses dois morando em Salvador). Naquela época, também estudavam lá os irmãos Péricles e Márcio Prado, as irmãs Lucila e Marília Fernandes, Robson Miranda (irmão de MacDonald, da Band), os irmãos Osvaldo e Orlando Celino, Ana Maria Sales e seu irmão, Joaquim Sales (da Daytona), Gracinha Duarte (a nossa musa de então), entre outros, que, oportunamente, mencionaremos.

Mais tarde, o São Tarcísio, já com o nome de Ginásio, passou a funcionar nos dois endereços: lá na Viriato Ribeiro e na Olívia Flores, onde ficou, até ser extinto.

Nossa turma foi a primeira do primeiro, segundo e terceiro anos, tudo no curso ginasial (já foi primeiro grau maior e hoje, nem sei mais o que é). Pois muito bem, e o que tudo isso tem a ver com o caso de hoje? É muito simples, tudo aconteceu numa determinada aula no querido São Tarcísio. Na nossa turma, além de mim, tinha Áureo Galvão Filho, Felipe Fernandes, o Felipão (filho de Ubirajara Fernandes), Perpétua Correia de Melo, Sandra Ferraz, Mauro Muñoz, Crésio e Fernando Dantas Alves (filhos de dr. Fernando Dantas Alves), Pedrinho Moraes e Gilvan Quadros (filho de Raimundo Quadros). Ah! O querido amigo Gilvan, uma das pessoas de raciocínio mais rápido que tive a oportunidade de conhecer.

O caso ou “causo”, como querem alguns, aconteceu numa aula de Ciências. Nosso professor era Ubirajara Ramos Cairo, o Bira Cairo, bioquímico da LAC. Um verdadeiro Mestre, que, certamente, não será esquecido por quantos foram seus alunos. Bira (é assim que o tratamos até hoje), como fazem questão de afirmar algumas mães (a minha é uma delas), teve importante participação na educação de seus filhos, muitos deles com destacada atuação em diversos campos profissionais do dia-a-dia de Conquista.

Estávamos num mês de inverno, junho pra ser mais exato, e olhe que naquela época (69 ou 70), o frio em Conquista era de lascar. Daqueles que deixam o sujeito com a orelha azul, durinha, durinha (a orelha, claro). O vento zunia na alma. A farda (que éramos obrigados a vestir), lembro-me como hoje, camisa volta ao mundo amarela, gravata e calça azul-marinho.

Volta do recreio, todos nos preparávamos para assistir à aula do querido Bira. Nesse momento sempre aconteciam aquelas brincadeiras inocentes de outrora: um passa a mão no cabelo de uma colega (naquele tempo, só isso) outro bate na orelha do que passa, existem os que se escondem pra assustar os que chegam, tudo até nos acomodarmos em nossos lugares. Alguns minutos mais tarde, chega o professor. A aula vai se desenrolando sem novidades. Bira explica dali, um aluno pergunta daqui, e, de repente, o professor tem a idéia (seria melhor não tê-la) de pedir um barbante, para demonstrar uma determinada experiência, a pergunta veio assim, direta:

– Quem tem um barbante?

Ele, Gilvan, se levanta. Sem dizer uma palavra sequer, abaixa-se, pega a sua pasta de livros (pelo menos é que se supunha), abre o zíper e se senta. Começa então um verdadeiro ritual: “futuca” a pasta de um lado pro outro, tira livro, coloca livro, tira peças de um jogo de futebol de mesa, tira uma dama do jogo de xadrez, saem também algumas figurinhas de um determinado álbum, o tempo vai passando, a turma toda esperando, e Bira se incomodando. O silêncio, cada vez maior, fazia aumentar também a angústia de todos. O professor, já que esperara até ali, só podia mesmo continuar esperando. De repente, Gilvan exclama um:

– Ah! Rá!

Pensamos todos: “Pronto! Ele encontrou o danado do barbante”…

Ledo engano. Imediatamente após a sua exclamação, Gilvan se senta e, tranqüilamente, como se não fizesse parte daquele drama todo, tira, da pasta, uma luva, coloca na mão direita, tira outra luva, coloca na mão esquerda, fecha a pasta, coloca embaixo da cadeira, cruza os braços e, com a mais santa das ingenuidades, espera a continuação da aula do estupefato Bira Cairo, que outra atitude não podia ter, senão a de deixar a sala de aula e só voltar numa próxima oportunidade.

Uma Resposta para “Bira e o barbante”

  1. Gilvan

    Tenho por Paulo Ludovico uma profunda admiração!Íntegro, inteligentíssimo, espírita, maçon, flamenguista “doente” (Rs.), além de colega por 3 anos no saudoso Ginásio São Tarcísio, ele foi também meu colega no curso de Engenharia Civil na UFBA. Paulo foi e continua sendo, embora há bastante tempo não nos encontramos, um dos meus mais queridos amigos de todos os tempos. Gosto dos seus sempre interessantes textos e admiro o seu refinado senso de humor.
    Aproveito para mandar um afetuoso abraço para Paulo e mensionar o meu desejo de não demorar em encontrá-lo para um bom papo, ao tempo que agradeço a lembrança e o registro do meu modesto nome nesse pitoresco “causo” da nossa adolecência.
    Ao Querido Mestre Bira Cairo e demais professores do São Taecísio, o meu carinho e eterna gratidão.
    Para todos os nossos colegas e conteporâneos daqueles bons tempos, o meu fraternal abraço.

    Gilvan Quadros

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