A quinta Estação

Foto: BLOG DO ANDERSON
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Jorge Maia

Penso que Vivaldi era uma pessoa de bem com  a vida. As emoções contidas na sua obra  dedicada às quatro estações denunciam significados de beleza e vivência. Um amadurecimento que envolve a aceitação do ciclo natural da vida, sem a fuga ou atalhos que violentem a permanência do ser, mas que integra a espiritualidade aos valores culturais e humanos, permitindo que a nossa existência encontre um lugar para ser humano. E sendo aceito nessa harmonia  sinfônica permite que a vida se cumpra sem o artificialismo, para o qual a maioria optou na sociedade materializada, pelo conforto  construído  pela ciência, contribuindo para o estabelecimento de valores fugidios  e sem a magia da simplicidade natural, torna humanizada a vida. Leia na íntegra.

Imagino  que o mundo nasceu na primavera, portanto, para cada continente a vida surgiu em momentos diferentes, mas de igual modo repetida a sua beleza. A  explosão de vida, da energia vital rompendo as amarras do estado bruto da natureza e fazendo brotar a grandeza da vida em um espetáculo que se repete sem o cansaço da platéia. É a estação da ebulição, do tentar conhecer, da suavidade da vida, misto de curiosidade  e ternura. A curiosidade está presente, tudo é novo e o mundo e a vida não têm fim.

Em uma seqüência muito apropriada vem o verão. O sol, o calor,  há um convite para a aventura. Vivenciar cada minuto com sofreguidão, nenhum momento pode ser desperdiçado. Esta é a oportunidade de estabelecer a marca de cada um. A presença deve tornar-se marcante. A sensação de que ninguém é insubstituível, mas que devemos nos tornar inesquecível. Como os animais, queremos demarcar o nosso território. Somos invencíveis e o mundo precisa de nós, ou perecerá. Há algo de belo e de forte em tudo isso.

Um dia chega o outono. A vida, impregnada da vivência das duas estações anteriores, toma um novo significado. É como se a primavera e o verão plasmassem um novo ser. O equilíbrio é buscado com mais intensidade. Mas sempre  está presente  e em conflito, a pureza dos primeiros momentos, o calor das conquistas e dos prazeres e a noção de que a vida está mudando e, sem que perca o seu significado, transforma-se em usufruir a maturidade encontrando  novas razões e variações sobre o existir.

Quem passou pelas três estações e chegou até o inverno encontrará o tempo da reflexão, da introspecção que remete para a memória  e para a razão. Há mais tempo para tentar compreender certos mistérios que povoaram a nossa alma. A paisagem é fria e monótona. A saudade faz suas visitas e costuma demorar, mas é possível sobreviver, afinal, quem acumulou a fortuna musical das estações passadas poderá escapar com vida, contando com a vantagem  de perceber que a primavera recomeçará o ciclo e se repetirá com outras vidas, mantendo a sua continuidade . A repetição é o segredo da natureza que sabe que é bom ser de novo.

Ser de novo é o encontro das quatro estações. Na fusão  dos seus valores individuais, explosão de vida, calor, conquistas e prazeres, maturidade, reflexão e sabedoria. É a quinta estação que todos buscamos, não só para cada um nós, mas para a vida humana em seu conjunto: social, político e cultural em busca da harmonia entre o humano ,a natureza  e o espiritual contidos no eterno concerto de Vivaldi. 110403


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