Jeremias Macário de Oliveira | a extrema em derrocada

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Jeremias Macário de Oliveira | jornalista e escritor

O povo é enganado por um tempo, por um bom tempo, mas não por todo tempo. Há uns quinze anos ou mais, numa roda de conversas num bar, disse que uma extrema direita estava vindo aí para assumir o poder no Brasil através do discurso das igrejas neopentecostais ultraconservadoras. Cheguei a falar sobre o perigo de uma ditadura.  Lembro que alguns comentaram que não havia mais clima no país para isso. Fiz ver que o projeto dos pastores era justamente, em nome de Deus, pátria, família e tradição, eleger pelo voto direto popular suas lideranças para exercer cargos políticos nos legislativos, depois partir para tomar o poder executivo e impor o autoritarismo. Confira a opinião de Jeremias Macário.

  Eles conseguiram chegar lá, ostentando poder e dinheiro tomado de seus seguidores, mas hoje diria que essa extrema direita está entrando em derrocada, porque o povo está sentindo que foi enganado e começa a acordar desse pesadelo de que o Deus deles não é verdadeiro.

  Todo esquema estava sendo montado nesta intenção com a doutrina evangélica condenando as mudanças sociais, políticas e comportamentais onde os pastores diziam para o povo mais simples, pobre, inculto e ignorante que as famílias estavam sendo destruídas, ninguém mais era patriota, as tradições corroídas e que tudo aquilo era coisa do diabo.

   A condenação teve início com a homofobia, com o casamento de gays, a misoginia, contraponto ao avanço das mulheres na sociedade, o ensino sexual nas escolas, o debate sobre o aborto até chegar ao racismo e atingir a democracia. A ideologia tinha origem no fascismo.

  Para quem perdeu a memória, tudo isso começou no final do Governo de Fernando Henrique Cardoso e, principalmente, nos Governos do Lula I e II, abertamente com suas posições de esquerda, com a introdução de políticas públicas e mudanças em vários setores.

    O PT era o maior alvo por ser o responsável pela desgraça de tudo, pela “degeneração” das tradições, dos bons costumes e, com isso, colocavam o comunismo, comedor de criancinhas e idosos, como maior inimigo. Tudo aquilo incomodava pastores e evangélicos conservadores.

 A partir dali nasceu o fanatismo fundamentalista em oposição ao comunismo, ou aos comunistas. Para reverter esse quadro, com a Bíblia numa mão e o satanás na outra, a proposta era tomar o poder através das eleições. Para tanto, eles agiam por meio da doutrinação dos fiéis que já vinham de longa lavagem cerebral, somado ao dinheiro arrecadado. A classe mais pobre foi a matéria-prima principal.

  Como diz o tabaréu matuto, “vortando” à vaca fria, o bolsonarista extremista do seu Deus, da intervenção militar, do falso patriotismo adorador e entreguista dos Estados Unidos, do conceito daquela família tradicional, não está mais convencendo boa parte da parcela extremista. Está havendo um racha político entre eles.

  Pelas trapalhadas que fizeram, inclusive referentes às tentativas de um golpe de Estado contra a democracia visando implantar uma ditadura militar, pelo uso maldoso da boa-fé dos fieis para se enricar e subir ao poder, sempre em nome de Deus, pela maneira como trataram a pandemia e tantos outros fatos escandalosos, uma ala da direita moderada não comunga mais com essa extrema raivosa e canina.

   Por essas e outras é que entendo que essa extrema direita está chegando ao seu fim trágico, como aconteceu agora nas eleições da Hungria, e a tendência é ser seguida por outros países. O mundo mudou com as novas tecnologias e formas de pensar. O extremismo começa a ter o seu prazo de validade vencido, com sua morte anunciada.

 Pelas suas maluquices, tripolias, mentiras, blefes e autoritarismo, o Trump, o cachorro louco dos Estados Unidos, que chegou ao ponto de postar uma imagem sua na forma de Cristo curando doentes e brigar até com o Papa, entrou numa enrascada sem saída.  Mesmo com a influência do seu Governo, a Hungria votou na oposição. A esta altura, a extrema-direita no Brasil vai aceitar um apoio do Trump na campanha eleitoral e levantar a bandeira trompista?

   A maior proeza de Trump, nessa loucura toda, foi conseguir unir o povo iraniano que estava dividido em relação ao regime dos aiatolás porque seu país foi invadido e teve sua soberania vilipendiada.

Ele fortaleceu ainda mais o regime do Irã, sem contar que é grande sua reprovação interna por parte dos norte-americanos. O Trump destemperado corre o risco de ser cassado e preso. A intervenção no Oriente Médio foi um fiasco. Seu estafe não teve a coragem de dizer a ele que o Irã não é a Venezuela.

  Esses fatos e outros estão repercutindo em outros países, como no caso do Brasil e na América Latina. A direita centrista está repudiando o extremismo e procura ficar distante deste campo.

   Vejo que o ódio e a intolerância estão perdendo força e, aos poucos, sendo isolada e rejeitada, dando lugar à moderação. A esquerda radical e fanática também precisa aprender esta lição e mudar o seu discurso arcaico.

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