
O filme morbius chegou aos cinemas em março de 2022 com uma história de desenvolvimento de mais de seis anos e saiu das salas com críticas negativas e bilheteria abaixo da expectativa, mas com um lugar garantido no imaginário coletivo da cultura pop digital. Disponível em streaming gratuito, é um título que merece ser visto pelo que é em vez do que prometeu ser.
Sinopse
O doutor Michael Morbius é um bioquímico de renome internacional que desde a infância sofre de uma doença sanguínea rara e degenerativa. Determinado a curar-se através de um experimento que combina DNA de morcego-vampiro com eletricidade, ele realiza o procedimento em si mesmo em alto mar e acorda transformado, fisicamente curado mas com necessidade de sangue humano para sobreviver, além de velocidade, força e ecolocalização sobre-humanas.
Seu amigo de infância Milo, interpretado por Matt Smith, sofre da mesma doença e ao descobrir a transformação de Michael decide se submeter ao mesmo processo. Diferente de Morbius, Milo não demonstra nenhum interesse em controlar os novos impulsos, tornando-se o antagonista principal que o filme precisava para estruturar seu terceiro ato.
Elenco completo
Jared Leto como Michael Morbius; Matt Smith como Loxias “Milo” Crown; Adria Arjona como Martine Bancroft, cientista e parceira de Morbius; Jared Harris como Dr. Emil Nicholas, o médico mentor de Morbius desde a infância; Tyrese Gibson como agente do FBI Simon Stroud; Al Madrigal como agente Rodriguez; Michael Keaton numa participação especial que conecta o filme ao universo do Spider-Man da Sony, retomando o papel que fez em Homem-Aranha de Volta ao Lar.
A direção é de Daniel Espinosa, o sueco responsável por Life e À Espreita, com roteiro de Matt Sazama e Burk Sharpless.
A distinção vampiro biológico versus vampiro sobrenatural
A origem de Morbius como personagem dos quadrinhos, criado em 1971 por Roy Thomas e Gil Kane, tem uma especificidade narrativa que o distingue dos vampiros convencionais da ficção, pois suas capacidades e necessidades são de origem biológica, não sobrenatural. Isso significa que são teoricamente tratáveis por ciência, que não tem fraqueza a objetos sagrados ou à luz solar da mesma forma que vampiros folclóricos, e que o conflito central do personagem é o de um cientista que precisa aplicar seus próprios conhecimentos para resolver um problema que ele mesmo criou em si mesmo.
O filme desenvolve essa distinção com variável sucesso, introduzindo o sangue sintético que Morbius usa inicialmente para controlar a necessidade e a deterioração progressiva que o leva para mais perto do comportamento que tenta evitar. É o aspecto narrativo mais interessante do roteiro e o que mais claramente reflete o que tornava o personagem dos quadrinhos original.
O design de som e efeitos visuais que funcionam
Separando os problemas narrativos do que o filme executa bem tecnicamente, o design sonoro das cenas de ecolocalização de Morbius é um dos aspectos mais bem trabalhados. A representação visual e sonora de como Morbius “vê” o ambiente através do som quando sua visão falha cria uma experiência sensorial específica que o horror de super-herói raramente tenta. A equipe de efeitos visuais trabalhou com consultores de ecolocalização de morcegos reais para criar uma representação que fosse tanto visualmente interessante quanto biologicamente referenciada.
O streaming gratuito e o acesso contínuo a filmes de gênero
O catálogo de filmes de horror, ação e aventura nas plataformas gratuitas disponíveis no Brasil tem crescido de forma consistente nos últimos dois anos, com títulos que estiveram em plataformas pagas chegando ao segmento gratuito em janelas progressivamente menores. Para o espectador que consome cinema de gênero com regularidade, essa expansão representa uma vantagem real, com mais opções de qualidade variada disponíveis sem custo adicional do que em qualquer momento anterior.
O universo Sony Spider-Man e as expectativas não gerenciadas
Um dos problemas específicos que Morbius enfrentou foi de posicionamento: foi lançado como parte do Sony Spider-Man Universe, o que criou expectativas de que o filme seria integrado ao MCU de formas que a produção nunca prometeu explicitamente mas que o marketing deixou implícitas. A presença de Michael Keaton, vinda do papel de Abutre em Homem-Aranha de Volta ao Lar, amplificou essa expectativa.
Quando o filme não entregou essa integração de forma satisfatória, parte da decepção da audiência não era com o filme em si mas com a diferença entre o que o marketing sugeriu e o que o produto entregou. Essa gestão de expectativas mal calibrada é um dos erros de marketing mais comuns em filmes de super-herói e um dos mais difíceis de recuperar depois do lançamento.
