Jeremias Macário | o São João show business

Foto: BLOG DO ANDERSON

Jeremias Macário de Oliveira | jornalista e escritor

Prometi a mim mesmo não mais falar ou fazer algum comentário sobre o nosso saudoso São João tradicional nordestino, mas de tanto ver e ouvir absurdos, extravagancias e a morte lenta desta festa junina, não consigo controlar minha revolta contra esses embusteiros prefeitos, artífices da destruição da nossa cultural.   O nosso São João de outrora virou um show business, uma indústria de entretenimento voltada para o lucro, só que para os bolsos dos “famosos” pagodeiros, arrocheiros, sertanejeiros, axeseiros e lambadeiros que fazem suas porcarias musicais e recebem altos cachês pagos com o suado dinheiro do povo, manipulado pelos coronéis da política.  Vou começar por Vitória da Conquista. De acordo com o Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público do Estado da Bahia, a Prefeitura Municipal vai pagar mais de quatro milhões de reais com a contratação de 95 atrações para o “Arraiá da Conquista 2026”. Estou achando que tem mais coisa nesse pirão. Continue a leitura.

    Até aí, tudo bem. O pior é que os artistas locais e nacionais receberão cachês que variam de cinco mil reais a seiscentos e noventa mil, uma excrescência em termos de diferenciação no que concerne aos valores. Os cachês mais altos serão abocanhados pelo cantor Pablo, seguido da cantora Joelma (R$550 mil) que viraram forrozeiros para inglês ver.

   Quanto mais vou citando estes disparates e desmantelos administrativos contra a nossa secular cultura do forrobodó, vou ficando mais tiririca da vida, virado no diabo. Uma banda local fica com cinco mil reais, isto para pagar lá pelo final do ano e ainda com a obrigação de se apresentar de graça num distrito. O estrangeiro do show business recebe adiantado e vai curtir em Dubai, nas arábias.

   Vamos viajar agora para o município de Quijingue, de pouco mais de 26 mil habitantes, lá no nordeste da Bahia, território do sisal, na microrregião de Euclides da Cunha. Lá é só pobreza e está atravessando uma seca, mas a prefeitura contratou uma tal de dupla mineira sertaneja dos irmãos Victor e Leo por setecentos mil reais.

  De onde vem toda essa grana, de um município tão pobre? O prefeito deve ser mais um daqueles que engana os bestas e tolos, de que a festa vai movimentar a economia e tirar a população da miséria e da fome.

Além de assassinar nossa tradição cultural, é mais um que vai a Brasília todos os anos de cuia na mão para dizer ao governo federal que os municípios estão “falidos” e sem grana para manter as prefeituras em funcionamento.

  Ouvi algumas reportagens jornalísticas dando conta que a Prefeitura de Irecê, antiga capital do feijão, pouco depois de Morro do Chapéu, estava com cachês previstos de vinte e um milhões de reais para pagar as atrações do show business, mas baixou para doze milhões depois de alguma intervenção do Ministério Público.

   Aqui perto de nós, em Anagé catingueira, distante pouco mais de 50 quilômetros de Conquista, a notícia é de que o MP-BA recomendou a suspensão dos contratos firmados pela prefeitura para os festejos juninos.

  O Ministério e os tribunais de contas do estado e dos municípios pedem esclarecimentos quanto aos contratos que estariam com indícios de irregularidades. Os órgãos estão solicitando relatórios fiscais e a comprovação da capacidade financeira do município.

  É um verdadeiro derrame de dinheiro, com falcatruas, superfaturamentos e outros malfeitos, que ocorre nesse período junino, para bancar artistas do barulho, com letras chulas que nada têm a ver com as nossas raízes nordestinas.

   As imagens televisivas passam megas estruturas de palcos que mais parecem com os shows do Rock Rio e Lolapalusa, tudo para receber os “artistas” da anticultura junina. Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco, já foram referências de São João autêntico pé de serra. Hoje, até o romântico Roberto Carlos foi convidado para jogar flores para o povão inculto dos shows business.

As indumentárias das quadrilhas, do tipo fazem de conta, mais parecem alegorias de escolas de samba. Trocaram o ritmo do maracatu e do forró, com a sanfona, o triangulo e a zabumbada,  pelos rebolados dos arrochas, das lambadas, dos pagodes e dos sertanejos, com as guitarras, baixos e as baterias estridentes.

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