
Jorge Maia | advogado e professor
Tenho o hábito de cantar ao fazer uma caminhada, ao arrumar um ambiente, ou mesmo ao andar pelas ruas e canto muito bem no chuveiro. Gosto de cantar. “Canto porque o momento existe, não sou alegre, nem triste”. Com facilidade saio de um forró para um samba e emendo com uma música antiga: “Tão longe de mim distante”. E sigo fazendo barbeiragens entre o dó e o lá. Não posso esquecer de “La donna è mobile”; Hey Judy e por aí vai. Não tenho o menor conhecimento musical, mas insisto em fazer a vida mais bonita usando os versos e tons à nossa disposição. Não seleciono uma trilha sonora, ou como dizem agora: playlist. Vou divagando com as escolhas aleatórias e depois de ‘Nessun dorma’ deparo-me cantando: ‘’nem se despediu de mim”. Não posso ignorar que o ecletismo é esquisito, mas rico em oportunidades de produzir um falsete, ou quem sabe um tanto de tenor. Vou com facilidade de “Que será, será?” a Tristeza do Jeca e confesso que fico encantado com tamanha versatilidade. Confira acrônica de Jorge Maia.
Por causa de tudo isso enfrentei uma situação pouco confortável, pois não me senti à vontade para dar uma explicação na altura do exigido. A interlocutora era exigente. Não sei qual a sua corrente científica, o que dificultou uma tomada de posição, ainda que modesta, pois a resposta exigia cautela para evitar maiores aborrecimentos.
Foi assim: eu estava em companhia de Melissa, menos de três anos de idade, Camila dirigia e eu entoava os meus gorjeios, quando resolvi cantar: “Estrelas mudam de lugar”. Não pude dar seguimento à música pois fora bruscamente interrompido: vovô! Estrelas não mudam de lugar!
Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente e fiquei meio perdido diante daquela afirmação. Imagine se eu canto o restante que diz que as estrelas chegam mais perto. Tentei esboçar uma resposta, mas saiu muito tímida. Estaria eu diante de um novo Copérnico, Kepler ou Newton?
Olhar para o céu e ver as estrelas fixas, no lugarzinho de sempre, nos dá uma segurança e impressão de estabilidade. É o que todos nós queremos. É preciso ser poeta para fazer as estrelas mudarem de lugar, “rolar das imensidões” e chegar mais perto para ver e contemplar o amor. Fui cauteloso e procurei adiar a conversa para alguns anos à frente.
Em breve teremos outra conversa e direi que as estrelas mudam de lugar e exibirei provas, tudo muda, tudo flui. o que não muda são alguns países que continuam usando como princípio da continuidade a velha lição de que é preciso mudar algumas coisas, para que as coisas continuem as mesmas. VC.05.08.26

