O franco declínio do setor calçadista

Foto: Reprodução
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Vinícius Ferraz de Andrade Simões

Há alguns anos Itapetinga passa por uma crise industrial e, consequencialmente, financeira. Aos tempos que passei por aqui, notei o caos que assolou o comércio, convivendo com fechamento de lojas e esvaziamento das calçadas em épocas de pico. A cidade – antes menina dos olhos dos governadores pela vitalidade, expressão e vigor político – vai aos poucos se rendendo às cíclicas crises e desfalecendo de suas funções adultas. Leia na íntegra a opinião de Vinícius Ferraz de Andrade Simões.

Para maior desgraça do cenário acima desenhado, a VulcabraslAzaleia demitiu cerca de 600 funcionários dos seus postos na semana que passou, causando ainda mais preocupação à região que sempre se sustentou com os galpões instalados no governo Paulo Souto, ocupados por indústrias calçadistas. Não pretendo, entretanto, a partir do que aqui será exposto, responsabilizar governos pela decadência que se vive, pouco menos chicotear as decisões de uma empresa que é vítima de um fenômeno nacional, a partir do qual, produtos chineses adentram no comércio brasileiro a preços pífios, tomando o mercado do produto doméstico. O propósito é um convite ao enfrentamento desse problema, a fim de buscar identidade com o produto nacional, rejeitando o que vem com mão-de-obra estrangeira, sem gerar benefício algum a solo brasileiro.

Além disso, dados colhidos desde 2011 demonstram que passamos por um processo de desindustrialização, pelo mesmo motivo acima exposto. Vejamos: no segmento de escovas, de quarenta empresas instaladas por aqui, apenas dez se sustentam. De mesmo modo é a empresa produtora do ímã de ferrite, quando de três empresas somente uma mantém intacta sua produção. A queda dos postos de trabalho da VulcabraslAzaleia só confirma a grave crise que passa a empresa. Programas do Governo Federal como o “Brasil Maior”, tentam tributar o calçado estrangeiro, mas há inúmeros artifícios utilizados para superar a barreira que se coloca e continuar a entrar em um preço que não é competitivo.

As demissões acendem o sinal de alerta, sobretudo para o governo estadual, pois caberia a ele o incentivo de sustento dessas empresas, atendendo aos mais de quatro mil empregos aqui ainda instalados, permitindo um giro no capital, pois do contrário teríamos cidades sustentadas por uma agricultura, aliada aos empregos dos funcionários públicos, o que inviabiliza qualquer gestão e amargura o sonho dos mais esperançosos. As últimas eleições municipais, ocorridas em 2012, levantaram a proposta de buscar cursos junto a UESB, para atender a uma demanda regional, atraindo jovens de inúmeros lugares do Brasil, todos eles participando do fluxo econômico, não deixando naufragar o barco que diversificou todo o cenário econômico.

Por derradeiro, nada mais justo do que a conscientização do brasileiro a fim de consumir somente o calçado por aqui produzido, mesmo que de um valor mais elevado, por entender que as vestes dos seus pés ajudam a empregar nacionais, além de permitir que o capital circule pelo mesmo território, fulminando qualquer tentativa de adesão a outros produtos. A região sudoeste sentiu, sente e sentirá se nada for feito pela defesa do sustento dos postos de trabalho, sob pena de esmaecermos o brilho de quem nasceu com brilho catapultado pelo seu povo.

*É estudante de Direito da Universidade Católica do Salvador


6 Respostas para “O franco declínio do setor calçadista”

  1. Ozzy Sampaio

    Vinícius, como economista, você é um belo estudante de direito. Artigo fraco, você pode mais que isso.

  2. Edy

    Em parte, concordo com o texto, porém, os governos têm suas responsabilidades, o federal, o estadual e o municipal. Ora, o apoio a indústria local, seja ela de nível nacional ou de “fundo de quintal” é de grande importância para o desenvolvimento de uma região. Há muitos empreendedores de bom caráter com dificuldades com seus negócios não por conta da falta de financiamentos mas, principalmente, da existência de uma carga tributária altíssima e burocracias que impossibilitam desenvolver seu negócio. Quanto aos produtos chineses, paciência… eu evito comprar mas não critico quem os compra, afinal quem compra tênis de trinta reais sabe que se comprar um similar de duzentos e dez reais (mesmo sabendo da durabilidade maior, mais conforto, etc) faltará algo para uma necessidade maior, talvez até alimento e vai levando como pode. O dia a dia de pessoas do mundo real não é nada fácil.

  3. Antonio

    Lamentavel seu comentário,então, vc acha que a solução são os cursos da UESB para resolver o problema da má gestão Econômica dos Governos Federal,Estadual e mais recentemente o engôdo Municipal?Por quê vc não esta fezendo Direito na UESB?Lamentavel……..

  4. PAULO

    Caro Vinicius, porque não encarar a principal causa da estagnação econômica da microrregião de Itapetinga? Altíssima concentração fundiária e monocultura bovina são os verdadeiros entraves da nossa economia. Será que você é filho de pecuarista? Então veja a matéria abaixo e reflita melhor:

    15 de septiembre de 2009 | Entrevistas | Foro Regional contra los Agronegocios | Soberanía Alimentaria

    Monocultura de boi

    Sergio Schleschinger, de Food&Water Watch, analisa a “monocultura pecuária”
    00:00|15:08

    A produção pecuária vem crescendo no Brasil as custas do desmatamento da Amazônia, despejando outros cultivos, sem gerar emprego e utilizando um pacote tecnológico trasnacionalizado que a transforma em uma monocultura a mais.
    No Brasil existem 200 milhões de cabeças de gado bovino ocupando cerca de 200 milhões de hectares. O Brasil é o principal produtor de carne bovina do mundo, e se bem apenas a Índia supera o rebanho brasileiro, por motivos cultural-religiosos esses animais não possuem valor comercial.
    Sergio Schleschinger da organização Food & Water Watch (Observatório dos Alimentos e da Água), analisou o fenômeno do crescimento da pecuária no Brasil indicando que as áreas onde vem avançando são da floresta amazônica.
    Isto com base num severo pacote tecnológico que envolve a produção de soja para alimentos de animais criados em confinamento (feedlots) e o uso de hormônios -desenvolvidos pela multinacional Monsanto- para aumentar a produção de leite, por exemplo.
    Conforme o analista, 64 % do desmatamento no Brasil é cometido com o objetivo de fazer pecuária. Ainda conforme Schleschinger uma percentagem cada vez maior das emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo Brasil provêem da pecuária.
    Na questão de empregos a pecuária extensiva brasileira também cumpre um papel pouco positivo. Com base em um cálculo de 2004, Schleschinger afirma que 100 hectares de cultivo de tomate geram cerca de 255 empregos, a mesma área de uva emprega 103 pessoas… enquanto que as monoculturas de exportação como a cana-de-açúcar emprega apenas dez pessoas a cada 100 hectares e a pecuária requer no mínimo 400 hectares para gerar 1 emprego.
    A incidência das transnacionales na pecuária do Brasil tem as suas próprias características, disse Schleschinger: são transnacionais brasileiras que estão expandindo para Argentina e o Uruguay, ocupando posições quase monopólicas nesses países e que fazem uso dos fundos públicos do estado brasileiro através do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
    Foto: http://lanacion.com.ar

    OBS : É MUITO DIFÍCIL TIRAR ITAPETINGA DESSA SITUAÇÃO. VIVEMOS EM UM MUNDO GLOBALIZADO E NÃO PODEMOS IMPOR SANÇÕES AOS PRODUTOS ASIÁTICOS, AFINAL, COMO IRÍAMOS MANTER OS MILHARES DE EMPREGOS NA AGROINDÚSTRIA DE SOJA E SEUS DERIVADOS, MILHO, ALGODÃO, CARNES, DENTRE OUTRAS COMMODITIES – SEM LEVAR EM CONTA A IMENSA CADEIA PRODUTIVA QUE SE ENTRELAÇA COM O AGRONEGÓCIO E SETOR DE EXTRAÇÃO MINERAL? VOCÊ ACREDITA QUE OS ASIÁTICOS ACEITARIAM, PASSIVAMENTE, QUAISQUER SANÇÕES COMERCIAIS AOS SEUS PRODUTOS? ME POUPE! VÁ ESTUDAR UM POUCO DE MACROECONOMIA!

  5. Adelson

    Antes mesmo de completar 1 ano de instalação eu já ouvia muitos comentários que esse tipo de empresa, atraída por isenção fiscal, mão de obra desqualificada e barata, etc, não se sustenta por muito tempo em região alguma. O tempo de permanecia se mede pelo tempo que os benefícios duram para ela. Assistimos nos últimos 10 anos a valorização real do salário mínimo, um custo que com certeza influenciou no lucro da empresa, outro problema são os benefícios fiscais que são finitos, se o governo não amplia seus prazos não é interessante para o empresário continuar naquela local e assim ele se muda, e provavelmente o negócio foi levado para um local que ofereça ao empresário mais lucros com menos custos, o que na verdade também é uma estratégia para garantir a sobrevivência.

  6. Rafael

    Meu caro acho que sua ótica esta muito simplificada para um problema estrutural. No sistema economico deve-se levar em conta sobretudo, as preferências do consumidor, ou seja, o que lhe trará o melhor custo-beneficio. Dessa forma, nao adianta querer incentivar a população a consumir produtos mais caros apenas pelo fato de manter a indústria funcionando, isso eu garanto que nem os proprios funcionários da Azaleia o fazem, a propria renda ja delimita essa decisao. E digo mais, se por ventura nao existisse produtos importados mais baratos a industria nacional buscaria alavancar ainda mais os seus lucros sem no entanto, melhorar os salarios dos empregados.
    Por tanto, reestruturar a indústria brasileira, é muito mais complexo do que se imagina, talvez a saida , a medio prazo para Itapetinga, seja a diversificacao da sua economia uma vez que o aumento na oferta de alguns cursos universitarios nao é o suficiente para equilibrar um municipio com quase 80.000 habitantes. Ainda ha a esperança de que novas fabricas do setor calçadista cheguem pa ar a suprir as vagas cortadas pela Azaleia ao longo dos ultimos anos na região.

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