A educação para divorciar

Jorge Maia

Jorge Maia

O divórcio pressupõe o casamento. Enquanto para casar temos os cursos preparatórios, o que eu não compreendo bem, embora tenha participado de alguns deles, relatado a minha experiência e tentando ensinar algo, compreendi, depois, que não é possível ensinar alguém como se comportar durante a convivência dos cônjuges.

É possível ensinar alguém a fazer algo, a construir um foguete para ir a Marte, ou atravessar a via láctea.Não é possível ensinar alguém o que é o casamento, se  não casando-o, então, ele saberá. Ao contrário do casamento, não há curso para ensinar a divorciar, quando deveria haver palestras, assistência psicológica, ou até mesmo psiquiátrica. Aliás está última deveria existir antes do casamento.

Para onde foram as cigarras?

Jorge Maia

Jorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando as manhãs de outono se anunciavam  quentes. Um mormaço tomava conta da cidade e todos reclamavam do calor. Havia uma formação de chuvas e todos se tornavam  meteorologista  e diziam  que ia chover, como se fosse grande novidade. A chuva não vinha de imediato, havia um ritual da natureza anunciando que haveria chuva pesada, como se quisesse, antecedendo Anita, dizer: preparem-se.

All that calça Lee

Jorge Maia

Jorge Maia

A expressão é sonora e a copiei do título de um filme: ” All That Jazz”, linda película, cujo título nos remete a uma recordação, não a uma ” amacord” italiana, mas a sensação de saudade de um tempo que foi representativo em nossa existência ou de um  momento especial, é que eu me lembrei da minha calça Lee.

Quem encontrar alguém usando uma calça Lee, por uma rua qualquer, não pode imaginar sobre o eu quero dizer aqui. Estou falando daquela calça Lee produzida até a década de setenta do século vinte. Sua cor azul índigo blue, o cheiro do tecido, a textura, tudo isso era muito próprio daquela roupa.

PY6APV- América – Portugal – Vitória

Jorge Maia

Jorge Maia

É engraçado avistarmos crianças com menos de cinco anos portando tablete, celulares e demonstrando certo domínio sobre tais equipamentos, causando inveja às pessoas que nasceram antes de 1970. De outro lado temos os adultos que não largam o celular, em todos os lugares e momentos, inclusive quando estão ao volante, criando uma situação de risco para todos nós. Fico a pensar, indagando o que é que as pessoas tanto falam? E ainda falam na falta de diálogo.

Mas nem sempre foi assim. Até a década de setenta do século vinte as os contatos telefônicos eram caros e difíceis e uma chamada cobrar deixa o dono da casa de cabelo em pé, pois temia receber a ligação e o assunto não seria do seu interesse e ainda ter que pagar aquela fortuna. As pessoas falavam menos e pensavam mais.  

Um castigo para o homem

Jorge Maia

Jorge Maia

A mulher sente menos dores que o homem. Acostumada às dificuldades da vida, sempre dominada pelo machismo vigente, aprendeu a conviver de forma mais resistente às agruras da vida. Antes, acostumada com a perda dos maridos e filhos nas guerras tribais ou não, quando muitos homens que partiram não voltavam.

Na vida rotineira tomava conta dos idosos e das crianças, sempre cuidaram da casa e às vezes do campo. No mundo moderno não mudou muito, a mulher continua insuperável no comando das atividades da casa, além de trabalhar fora, tudo isso com resistência física e emocional, na maioria dos momentos, invejável.

Regras jurídicas e regras da vida

Jorge Maia

Jorge Maia

O direito existe para garantir a liberdade. Ocorre que o direito tem sido apenas forma de manifestação de poder, mas só garante a liberdade quando o poder emana do Estado democrático de direito, representando a voz da maioria, sem impedir às minorias o exercício das suas respeitáveis diferenças e jeito de ser.

No embate entre as regras jurídicas e as regras da vida, uma convulsão avassaladora permeia o conflito dos valores fruto da lógica jurídica e aqueles da lógica da vida. A norma jurídica não consegue aprisionar as circunstâncias e sentimentos humanos gerados na existência de cada um de nós, em sua experiência pessoal e única, pois, quando colocado frente a suas necessidades e vida real, rompemos os elos da prisão dogmática e aplicamos as regras da vida, nem que para isso nos tornemos rebeldes e descumprimos a norma jurídica, naquelas ocasiões, menos importantes.

As chuvas das águas

Jorge MaiaJorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando eu costumava ouvir esta expressão: chuva das águas, sempre acompanhada do artigo a no singular indicando um período de chuvas e não apenas a uma chuva, pois estas eram muitas, fortes e duradouras. A expressão sempre me cativou, pois, soa de modo harmonioso e tem conotação poética.

Inicialmente, pensava que se tratava de um pleonasmo. Mas eu ouvia isso de pessoas simples, em especial do homem do campo, do catingueiro que depositava nas chuvas das águas a esperança de plantar e colher feijão e milho. Depois, percebi que o mundo mudou tanto que nem sempre chuva é de água: chuva ácida, chuva de meteoros e chuva de besteiras e de corrupção. Assim, não tem importância preocupar-se com vício de linguagem e nem de aprisionar em uma qualificação uma expressão popular carregada de otimismo.

Peter Pan ou de Dorian Gray?

Jorge MaiaJorge Maia

Tenho Perguntado aos meus alunos qual a coisa mais difícil da vida. Falo coisa porque assim é o nosso hábito, coisificar tudo para comunicar e ser compreendido, o que não merece censura na linguagem coloquial. Mas, na verdade não é uma coisa no sentido comum que a palavra indica significar. Quero dizer sobre um estado, um jeito de ser. Vendo a dúvida em seus olhares e certa timidez por não querer errar antecipo a resposta: a coisa mais difícil do mundo é ser adulto.

A manhã em que eu fui ao motel

Jorge Maia

Jorge Maia

Na vida nem sempre tudo é o que parece, sempre estamos cometendo erros em nossos julgamentos. Imaginem a minha alegria ao ser intimado, naquele tempo por oficial de justiça, para uma audiência esperada anos a fio. Era uma ação que motivava o advogado, pois provocante devido a sua complexidade. O mandado intimava para indicar as provas pretendidas e o prazo para indica-las, inclusive para apresentação do rol de testemunhas.

O canto triste da araponga

Jorge Maia

Jorge Maia

Quem viveu a infância ou parte dela na zona rural, ou mesmo em pequenas cidades deve ter conhecido diversos pássaros. Era muito comum pessoas que criavam passarinhos. Pessoas havia que tinham diversas gaiolas, e os mais variados pássaros. Ainda bem que hoje a consciência ecológica sofreu mudanças. O amor à natureza mudou de foco, a sua preservação, incluindo aí a fauna e a flora. Não é permitido a criação de pássaros brasileiros em gaiolas ou qualquer tipo de cativeiro, sem autorização do IBAMA.

O contato com os pássaros quer fosse na sua liberdade, quer fosse na sua prisão, era algo que enternecia pela beleza da plumagem ou pelo canto. Sobre tudo pelo canto. Quantas disputas para ver qual era o canário belga que melhor cantava. Quanta aposta decorria daquelas exibições de prisioneiros instigados a cantar, mascarando a sua prisão? Sempre fui contra aquelas gaiolas, mas era um costume arraigado e boa parte achava natural aquela situação.

Uma Carta para o Sr. Guliver

Jorge MaiaPrezado Senhor,

Não poderia começar minha carta senão pedindo desculpas pela invasão da sua privacidade. Tenho conhecimento do seu retiro voluntário em razão de todos os acontecimentos vividos durantes as suas viagens. Entretanto, não me contive. Outro dia, tentando colocar em ordem a nossa modesta biblioteca, deparei com a obra em que o Senhor relata as suas aventuras. Folheei de forma aleatória aquele volume e reli com certa saudade alguns trechos cujas lembranças já se iam apagando. Retornei ao início da obra e reli a carta do seu editor, porém, com maior avidez, reli a sua resposta a ele endereçada. Considerando a publicidade dada ao caso, não me senti violando correspondência. O tempo tornou–me cauteloso, mas, não menos curioso.

No tempo do brucutu

Jorge MaiaJorge Maia

O sol de verão descia preguiçoso por detrás da serra do Peri – peri. A cidade mansamente preparava-se para o descanso, em que a agitação maior, provavelmente seria a corrida para chegar a tempo de assistir ao repórter Esso. Ainda era um tempo em que havia cadeiras nos passeios das casas, o que denunciava a fraternidade entre os vizinhos. As meninas ainda brincavam de roda e os meninos jogavam bola na rua. Às vezes era uma bola de meia, mas os gols nunca foram tão de “placa”.

Uma ponte chamada Alameda

Jorge Maia

Jorge Maia

Em outro momento falei sobre a Alameda Ramiro Santos, que era calçada com paralelepípedos. Eram bem gastos quando eu conheci a Rua Ramiro Santos. O trânsito para veículos era liberado a partir das dezoito horas indo até as seis do dia seguinte. Durante o dia era palco de encontros, paqueras e realizações de negócios.

Era a nossa Rua Chile, comparada com aquela de Salvador, naquele tempo. Movimento intenso. O comércio Chic ficava ali. Os nossos “ Magazines”, lojas de artigos de luxo, além disso era a nossa passarela em que desfilavam transeuntes de todas as classes sociais, sempre foi muito democrática. Os desfiles diários eram substituídos pela movimentação do comércio no natal, quando as lojas eram abertas durante a noite permitia transformar-se em local de passeio e flertes.

Geografia Forense

Jorge MaiaJorge Maia

Em dezembro de 1976, portando minha inscrição na OAB-BA., iniciei a palmilhar os caminhos difíceis da advocacia em Vitória da Conquista. A mecânica forense exigia aprendizado diário para manter-me familiarizado com o labirinto processual. Em nossa Comarca era mais difícil que as demais, pois não havia uma centralização das atividades forenses.  A distribuição estava situada na Avenida dos Expedicionários, funcionava na residência de Dona Dalzira Gusmão, que era distribuidora, contadora e partidora. Difícil encontrar alguém mais gentil e dedicada aos seus afazeres.

Adão, o Profeta da Alameda

Jorge Maia

Jorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando atravessava a alameda Ramiro Santos em direção à Praça da Bandeira. Naquele tempo, década de sessenta a rua era calçada com paralelepípedos e conservava dois cavaletes em cada extremidade, neles escrito: permitido veículos das 18 às o6 da manhã. Imaginem já havia preocupação com o trânsito.

Na parte superior, do Aldo direito de quem desce, na esquina onde hoje é uma farmácia era a famosa “casas Pernambucanas” loja tradicional e só existente nas grandes cidades e Conquista era desde então um grande centro comercial. As paredes eram pintadas de um amarelo forte e que, sinceramente, não me agradava. A parte inferior da parede era de um azul muito escuro, formando uma barra em todo o seu prolongamento.

Agora, os Nossos Comerciais!

Jorge MaiaJorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando aprendi a ouvir rádio. A rádio Clube de Conquista, AM, sempre foi companheira e com ela ouvi os mais variados ritmos musicais, mas também os comerciais que fizeram época. Era interessante no inicio da abertura dos trabalhos, ouvirmos o comercial: bom dia com guaraná Fratellivita, assim era após o meio dia e no final da programação: boa noite com guaraná (…). Aprendi outro comercial cuja melodia me encantava, era da tinta para caneta tinteiro da marca Parker: escrevi seu nome na areia, a onda do mar levou. Escrevi com superquink, nunca mais se apagou… Um comercial que eu achava engraçado era o das Casas Pernambucanas e começava com uma batida em uma porta e alguém perguntava: quem bate? E respondia é o frio. ( cantando)Não adianta bater, eu não deixo você entrar, nas Casas Pernambucanas comprei agasalho para o meu lar.

UESB: Professor Manoel Augusto se despede com chave de ouro

Familiares, professores, alunos e ex-alunos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), prestaram suas homenagens ao professor Manoel Augusto Sales Figueira, que se aposentou recentemente. A solenidade aconteceu na noite dessa quarta-feira (30), data em que o mestre, que foi um dos responsáveis pela implantação da UESB, comemora os seus 70 anos de idade. O reitor Paulo Roberto Pinto Santos, o vice-reitor José Luiz Rech, acompanharam o ato. Os professores Paulo Pires, Jorge Maia, Wesley Piau e Heleusa Câmara foram alguns dos colegas que deixaram as suas mensagens. Além de Paulo Pires, o Coral da UESB abrilhantou a cerimônia com momentos culturais.

Don Corleone e Valfrido Canavieiras

Jorge Maia

Jorge Maia

Não há glamour  na máfia. A música adocicada do “Poderoso Chefão” ( Parla più piano e nessuno sentirà) nos transporta para um romantismo  piegas e com tendência a simpatia para com  a família Corleone. Claro, o trabalho de Mário  Puzzo sob os holofotes de  Coppola   é do ponto de vista da sétima arte  belíssimo, Não há como não se encantar com aquelas cenas e com aqueles diálogos.

A máfia é brutal e sem noção de valores, confirmando a regra que os fins justificam os meios, no pior sentido que possamos atribuir a tal expressão. Por essa razão, chamar alguém de mafioso, brincando, pode ter algum sentido de humor, mas uma simples reflexão nos conduz a evitar tal hábito, pois, não devemos banalizar com gestos simpáticos aqueles que geram a dor profunda causada por sua violência e por sua capacidade de corrupção.