Em defesa da ignorância

Jorge Maia

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Não é preciso ser grego, nem falar alemão para ser filósofo. A Beócia fala Beocês e tem filósofo. Não foi difícil descobrir isso; outro dia, em uma daquelas vezes em pernoitei na Beócia, aproveite para curti a noite e sai para o jantar em um dos bons restaurante da cidade. Costumeiramente fui bem recebido por alguns amigos que sentavam à mesma mesa. Fui convidado e recebido com a alegria comum aos beócios.

Cumprimentei a todos e pedi que a conversa continuasse, não queria incomodar o bate papo da turma. Assim, a conversa retornou com a palavra dominada por Zé Picuinha, filósofo local que defendia a ignorância como fórmula para trazer a paz e a serenidade à terra. Era político na Beócia e tinha uma boa oratória  e reiniciou a conversa  afirmando que a felicidade é ignorante.

Aracatu, 1927

Jorge Maia

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Até parece história de pantaleão, aquele de Chico Cite que iniciava seus casos sempre dizendo: em 1927, e por aí seguia narrando seus exageros. Mas foi em um dia de 1927, próximo do meio dia. A pequena praça de Aracatu repousava em sua calma permanente quando um ruído estranho quebrou o silêncio comum e assustou a todos. Era um ruído de  máquina, estranho à maioria dos seus moradores.

Alguns gritavam, outros se persignavam e olhavam para o céu pedindo socorro. Naquela ocasião, meu pai, com quatro anos de idade, foi pegado às pressas por Alzira, que dele cuidava, e carregado na cacunda, alguém se lembra dessa palavra? O certo é que Alzira, assombrada, correu para o mato tentando fugir do monstro que invadia a nossa cidade.

Debates Beócicos

Jorge Maia

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Este ano os Beócios terão eleições para o Executivo e Legislativo. Tomei conhecimento sobre os debates organizados pela grande imprensa, mas não os assisti. Não é fácil conseguir uma transmissão para o Brasil. Li algumas notícias, mas não o suficiente para assenhorar-me dos fatos ali ocorridos durante aquelas eleições.

Graças a uns bons amigos, consegui captar a imagem via internet. Fui presenteado com uma antena holográfica dual/epistêmica. O seu uso ainda não foi homologado no Brasil. As vezes tenho a impressão de estar fazendo algo ilegal. Não sei bem em que tipo penal se enquadraria tal conduta,mas  certo é que usando a tal antena pude assistir ao último debate.

O Homem de Java

Jorge Maia

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No inicio do ano letivo de 1970 conheci o Padre Guilherme. Entrou na sala de aula e impressionou a todos da turma, com sua figura alta e magra, sobre tudo por sua pronuncia carregada, dando mais força do que o necessário às palavras proparoxítonas. Em especial à palavra matemática, a qual pronunciava com muita simpatia. Afinal, dedicava parte da sua vida  aos números misteriosos e atormentadores de nossas cabeças juvenis, povoadas de sonhos menos complicados.

Do Paraíso a Pequim

Jorge Maia

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Uma tira de quadrinhos em um jornal chamou a minha atenção; no primeiro quadrinho a mulher diz para outra: sei que um dia as mulheres serão iguais aos homens. Com uma taça erguida conclui:  mas enquanto isso não acontece vamos brindar a nossa superioridade. A fantasia que relata a criação da mulher como resultado do trabalho divino em uma costela, pedaço de osso de um homem, não me parece convincente. Causa-me a impressão de ser uma invenção de homens, cujo objetivo foi sempre colocar a mulher em nível inferior, explicando uma origem de dependência  ao homem, o qual ao lhe emprestar um fragmento ósseo, ofereceu-lhe a vida.

Sala de aula

Jorge Maia

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A sala de aula é um santuário, pelo menos deveria ser. É um lugar sagrado,pois cuida do saber. Para o professor é um trabalho, portanto a medida da liberdade, é assim que deve ser visto o trabalho. Mas é muito mais. É um retrato do mundo. Precisa ser retocado, sem fotoshop. O retoque é apenas para aparar as arestas e contornos necessários para que seja garantido o exercício da autonomia  do saber, sem perder a sua condição de território livre, onde ideais e pensamentos sejam discutidos livremente, sem censura. O saber não tem fronteiras.

Carta da Beócia – III

Jorge Maia

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Sempre que eu demora de ir à Beócia, meus amigos escrevem cobrando uma visita. Fiz grandes amizades naquela terra, essa é a razão de tanta atenção e desejarem a minha presença.

É verdade que tenho espaçado as minhas viagens até a Beócia. Razões particulares têm mudado os meus rumos. Espero em breve retornar àquela terra doce e mansa, de um povo bom, verdadeiramente generoso, mas que Deus, em terrível experiência, permitiu ser administrada pelos piores políticos já produzidos em toda via láctea.  Aqui reproduzo a carta de uma amiga, Maria Joaquina do Amaral Pereira Góes:

O ano em que Lilita perdeu a razão

Jorge Maia

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Eu ainda nem era menino e Lilita perdeu a razão. Quem me contou foi meu pai. A primeira vez que ele veio a Conquista foi em 1938, quando trazia gado para as pastagens desta região, ou quando usava a cidade como passagem para seguir com a tropa para Jequié, levando ou buscando mercadorias. A passagem era a Rua da Boiada, nossa conhecida João Pessoa. Desde então, aquela rota tornou-se costumeira para as suas viagens.

Meus livros, meus amores

Jorge MaiaJorge Maia

Acordar no meio da noite, sem sono, tentar dormir e não conseguir  me faz levantar e percorrer a casa em busca  de encontrar o sono. Beber água, examinar a geladeira e desistir de atacá-la, o que é sempre recomendável. Ir até a varanda, contemplar o céu e olhar as estrelas tentando encontrar morfeu escondido em uma delas, o que resulta em perda  de tempo, pois quando ele sai da sua casa, desaparece e custa a votar.

Aquelas manhãs de domingo

Jorge Maia

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Eu era menino, e não faz muito tempo, e me lembro das manhãs de domingo em Vitória da Conquista. Nossas manhãs tinham uma programação diferente das nossas tardes, sobre as quais fiz referencia em outro momento. É certo que  naquelas manhãs trabalhávamos em casa realizando a faxina necessária para manter a ordem da vida durante a semana.

As tarefas domésticas era realizadas ao som da programação da rádio clube AM que iniciava a sua programação com um programa gravado em long play divulgando a pasta Kolynos, apresentado por Moacir Franco. Era a forma de estar atualizado com a cação popular. Eram manhãs especiais, cheias de encantamento, cultura e diversão.

Ah, a luz foi embora!

Jorge Maia

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No princípio era a fogueira, em redor da qual todos se reunião para contar os fatos do dia, contar causos e planejar o dia seguinte. Com as últimas chamas, despediam do dia que acabara e iam para o descanso. Era causos de todos os tipos. A conversa transitava sobre a vida alheia e seguia pelos mistérios do além, e fazia muita gente tremer de medo.

Hoje, a fogueira é eletrônica. A televisão tomou conta da vida, substituiu o calor das brasas e o colorido das chamas pelas imagens em tempo real, falando do mundo inteiro, ou contando histórias de todos os tipos. Senhora da casa, enquanto ela fala ou mostra algo, ninguém fala nada. Aí de quem ousar interromper. Ouvirá uma saraivada de protestos e terá que ficar calado.

A marca da foice

Jorge MaiaJorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando ajudava meu pai em seu pequeno comércio de material de alumínio e ferragens em geral. Ali aprendi coisas do cotidiano, a exemplo de fazer certas contas de modo  rápido, claro que a repetição era a aliada para fixar na memória o preço de uma unidade, um dúzia, uma grosa ou uma resma. Hoje são palavras pouco ouvidas, exceção feita à palavra  dúzia.

Lembranças eleitorais

Jorge Maia

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Até meados da década de 90 do século vinte, as eleições era realizadas por meio do voto em cédulas. Aqueles que iniciaram a votar  usando a urna eletrônica não podem imaginar como ocorria a apuração dos votos. Hoje basta acionar uma tecla e  temos o resultado de cada candidato, sem a possibilidade de impugnação, graças à fé que depositamos no tal dispositivo eletrônico.

A cédula, aquilo que chamávamos de chapa, para o executivo trazia um quadrículo à esquerda do nome de cada candidato. Era simples, bastava assinalar no quadro e era aquele o seu candidato. Na verdade, aí era que a coisa complicava.

Zé Malagueta

Jorge MaiaJorge Maia

Sim, senhores, o nome dele é Zé Malagueta. Uma das figuras mais engraçadas da Beócia. Sujeito esforçado que saiu lá dos cafundós e foi para a cidade da  Beócia, tentar a vida. Trabalhou em vários lugares, aprendeu muitos ofícios. Mas sempre teve um problema, dos grandes: é muito esquentado, daí o apelido de Zé Malagueta. Suas histórias são impagáveis e por isso motivo de risos.

Outro dia, quando me encontrava na Beócia,  necessitei acompanhar Zé Malagueta em uma diligência para fazer a citação de determinada pessoa. Agora Zé era Oficial de Justiça da Beócia, dos melhores, com ele mandado não fica sem  cumprir. No caminho contou-se alguma das suas história. Ri muito.

Eleições na Beócia

Jorge Maia

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Naquela tarde o voo  foi  cancelado e tive que retornar para o Hotel Beócia. Não foi a primeira vez que tive voos cancelados ali. Embora uma cidade muito grande e um fluxo de passageiros que justifica um novo aeroporto, a Beócia continua dando pouca importância ao seu potencial de crescimento e para isto falta um bom aeroporto.

Voltei para o hotel. A noite era fria e preferi ficar vendo televisão para conhecer a programação local. Permaneci no restaurante, vendo o programa eleitoral que iniciou naquele dia. Era dezenove horas, apareceu o primeiro candidato à presidência da República da Beócia. Em seguida os demais foram aparecendo  sempre falando de saúde, segurança e educação. Todos tinham solução para esta tríade centenária que ninguém consegue resolver, era o que falavam as demais pessoas que assistiam ao programa, gente da terra. Permaneci calado, afinal, na condição de estrangeiro, não seria de bom tom manifestar-me sobre  política. Nenhum candidato falou sobre a situação do Poder Judiciário.

Um lugar p’ra fazer piquenique

Jorge Maia

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Eu era menino, e não faz muito tempo, quando tive a oportunidade de participar de piqueniques organizados por professores, isso lá no tempo do ginásio, hoje ensino médio. Era um acontecimento alegre e diferente da sala de aula, um dia de diversão, mas não deixava de ser também de aprendizado.

Havia um lugar para os piqueniques, era o parque de exposições, para nós era a chamada estação de monta. Era o subtítulo ou subnome do parque de exposição agropecuária. Naquele tempo a diretoria permitia tais piqueniques. O curioso é que para nós aquele local era muito longe da cidade, o que tornava a aventura mais atraente. Era muito espaço para correr, brincar, mas, sobretudo, a sensação de estar no campo. Claro, não era tempo de exposição.

Taboca e quebra-queixo

Jorge Maia

Jorge Maia

Eu era menino, e não faz muito tempo, quando um som de triângulo despertava-me para outra realidade. Não falo do triangulo que acompanha a sanfona e a  zabumba do forró, mas daquele meio sem ritmo e que era acompanhado do grito anunciando taboca. Era o vendedor de taboca que em seu ting-ling- ling convidada a meninada a comprar taboca. Não creio que as crianças de hoje saibam sobre isto, porém uma taboca tinha o sabor doce queimado, pelo menos era assim que eu percebia,com leve sabor de chocolate. 

No Fórum da Beócia

Jorge MaiaJorge Maia

Ontem retornei à Beócia. Fui examinar um processo no fórum da JFBE ( Justiça Federal da Beócia). Preferi o roteiro da orla marítima de modo a apreciar a paisagem. Antes, passei pelo metrô de seis quilômetros cantados em prosa e verso, sendo a grande novidade daquela gente. Confesso que não é grande coisa.

Segui admirando a natureza, rica, mas decepcionada, suponho, com tamanho maltrato por ela sofrido. Coisas de gente beócia que não percebe a grandeza de tamanha dádiva e segue indiferente aos estragos que provoca, em busca do lucro, ou as vezes pela sobrevivência, uma vez que a fome não tem ética.